Título: Paraguai abre arquivos da ditadura
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 15/10/2009, O Mundo, p. 35

Ativista de direitos humanos exorta Brasil e vizinhos a seguirem exemplo

BUENOS AIRES. Cumprindo uma de suas promessas de campanha, o governo do presidente do Paraguai, o ex-bispo Fernando Lugo, anunciou ontem a abertura de todos os arquivos militares do país, que a partir de agora estarão à disposição de tribunais locais e internacionais que estejam investigando crimes cometidos pelas ditaduras do Cone Sul. A decisão de Lugo foi comemorada por organizações de defesa dos direitos humanos, que em agosto do ano passado entregaram ao presidente o relatório final elaborado pela Comissão de Verdade e Justiça, no qual era solicitado o acesso aos documentos.

¿ O presidente Lugo ordenou a revisão de todos os papéis encontrados ¿ declarou o ministro da Defesa, Luis Bareiro Spaini.

Novos documentos ajudarão em ações contra militares Para representantes de ONGs locais, a existência dos arquivos militares, que estão no porão do Ministério da Defesa, em Assunção, não é uma novidade. Uma equipe comandada por Martín Almada ¿ que em 1992 revelou os chamados Arquivos do Terror, sobre a repressão por parte da ditadura de Alfredo Stroessner, entre 1954 e 1989, e sua parceria com governos militares da região ¿ descobriu os papéis escondidos no Ministério em novembro de 2008 e desde então trabalhava em silêncio.

¿ Em 1992 encontramos o arquivo policial, e com este arquivo militar completamos a parte que estava faltando ¿ explicou Almada ao GLOBO.

Para o advogado, vítima da ditadura de Stroessner (foi sequestrado em novembro de 1974), ¿a iniciativa do governo Lugo deveria servir de exemplo para todos os governos do continente¿.

¿ Muitos países, entre eles o Brasil, deveriam seguir este exemplo ¿ enfatizou Almada, um dos primeiros sobreviventes da ditadura a denunciar a chamada Operação Condor, o plano de ação conjunta entre os regimes militares sul-americanos, nas décadas de 70 e 80. ¿ Encontramos novos documentos que provam a colaboração entre as ditaduras da região. O Condor foi planejado e liderado pelos EUA e pelo Brasil.

Atualmente, os Arquivos do Terror estão no Palácio de Justiça de Assunção e podem ser consultados por paraguaios e estrangeiros.

¿ A nova documentação encontrada vai ajudar em processos importantes contra militares da região ¿ disse Almada.

Após encontrarem cerca de 10 mil fichários e papéis soltos no Ministério da Defesa, os pesquisadores paraguaios obtiveram a cooperação da ONU, que forneceu a tecnologia necessária para organizar a papelada.

Segundo confirmou Nora Barrios, encarregada de processar os documentos, dos 10 mil fichários encontrados, cerca de 200 contêm informações sobre o papel dos militares na repressão.

¿ Encontramos fichários que falam do G2, que é o grupo de inteligência que executava o Plano Condor ¿ explicou ela.