Título: O trator governista na CPI do MST
Autor: Franco, Bernardo Mello
Fonte: O Globo, 23/10/2009, O País, p. 3

Com maioria folgada, governo quer ter os cargos-chave para controlar investigação

BRASÍLIA

Derrotado na tentativa de impedir a instalação da CPI do MST, o governo agora prepara uma contraofensiva para assegurar o controle sobre a comissão e reduzir o seu potencial de produzir desgaste político às vésperas da eleição presidencial de 2010. Ontem, líderes aliados deixaram claro que não pretendem abrir mão dos cargos de presidente e relator, que devem ficar a cargo de parlamentares fiéis ao Palácio do Planalto. O objetivo é repetir a estratégia adotada na CPI da Petrobras, onde a divisão dos postoschave entre PT e PMDB tem permitido ao governo barrar requerimentos incômodos e ditar o ritmo dos trabalhos.

A oposição promete pressionar para ter ao menos um dos cargos.

Os aliados terão ampla maioria na nova CPI, segundo a divisão de vagas anunciada ontem pelas Mesas Diretoras da Câmara e do Senado. Das 36 cadeiras, 23 devem ser destinadas a parlamentares fiéis ao governo, e outras 13 ficarão com deputados e senadores de oposição ou que apoiaram a instalação da CPI. A divisão é proporcional ao tamanho das bancadas. Apesar da folga, o governo promete jogar duro e já ameaça ampliar o leque de investigações para repasses de verbas a entidades patronais como a Confederação Nacional da Agricultura, presidida pela senadora Kátia Abreu (DEM-TO).

O líder do PT na Câmara, deputado Candido Vaccarezza (SP), avisou que o governo não abrirá mão de comandar a presidência e a relatoria da CPI.

Ele ironizou a pressão dos oposicionistas para obter uma cadeira, como em 2007 na CPI do Cartão Corporativo, e defendeu a investigação de repasses a entidades como a CNA.

¿ O DEM e o PSDB podem ter espaço na Mesa. Se eles quiserem a vicepresidência, não vejo qualquer problema ¿ ironizou o petista. ¿ Não vamos permitir que a oposição use a CPI para criminalizar o MST. Se o objetivo é investigar o repasse de verbas para a reforma agrária, entidades que são contra também devem ser investigadas

¿É chantagem para intimidar a oposição

Kátia Abreu acusou os governistas de tentar constranger a oposição e endureceu nas críticas. Ela reagiu à ameaça de investigar as entidades patronais e disse que, nesse caso, cobrará o mesmo tratamento a cooperativas filiadas a centrais sindicais que apoiam o governo, como a CUT.

¿ Isso é chantagem barata para tentar intimidar a oposição. Vamos investigar bandidos, gente que desvia dinheiro público. Se é assim, também vamos querer investigar CUT e Contag.

O líder do DEM na Câmara, Ronaldo Caiado (GO), também criticou a intenção do governo de indicar os ocupantes dos principais cargos da CPI: ¿ Assim fica impossível investigar.

Se eles controlarem a presidência e a relatoria, a CPI não anda.

Dr. Rosinha (PT-PR), que comandara o esforço frustrado para impedir a criação da CPI, disse que lutará contra acordos com oposicionistas: ¿ O regimento interno tem que ser seguido: os cargos cabem aos dois maiores partidos, PMDB e PT.

Na composição da CPI, a vantagem do governo será maior na Câmara: dos 18 deputados, 13 devem defender o MST. O cálculo inclui a vaga do PSOL, que faz oposição ao governo, mas empunha a bandeira dos sem-terra.

No Senado, a relação tende a ser mais equilibrada: 10 a 8 para a maioria governista. É esperada a indicação dos senadores Osmar Dias (PDT-PR) e Mão Santa (PSC-PI), que integram partidos aliados, mas apoiaram a CPI.

Entre os governistas, o temor é que parte da bancada do PMDB também atue contra o MST. O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), prometeu não retardar a instalação da CPI.

Ontem, intelectuais brasileiros e estrangeiros divulgaram manifesto contra a criação da CPI. Eles acusam os ruralistas de tentar criminalizar os sem-terra e pedem protestos em todo o país contra a CPI. Assinam o documento mais de 60 intelectuais, entre eles Emir Sader, Leandro Konder, Luis Fernando Verissimo, Eduardo Galeano, Istvan Mészaros e Michel Lowy.