Título: Dinheiro pelos ares
Autor: Ribeiro, Erica
Fonte: O Globo, 24/10/2009, Economia, p. 33

Em meio a guerra de preços pela liderança, TAM e Gol captam mais de R$ 1 bi para reforçar caixa

Na briga pela liderança do mercado doméstico de aviação no país, TAM e Gol, as maiores do setor, recorreram ao mercado financeiro para captar recursos que ultrapassam R$ 1 bilhão. A disputa ¿ a TAM tem 44,15% de participação de mercado e a Gol, 41,85%, segundo dados de setembro da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) ¿ fez com que as companhias ¿queimassem dinheiro¿ ao longo deste ano, segundo especialistas do setor. A estratégia, agora, além de reforçar o caixa, é voltar o foco para as classes C e D. O duelo das maiores acaba respingando nas companhias médias, afetadas pelas tarifas muito baixas e estratégias agressivas.

¿ Cada 1% do mercado equivale a R$ 200 milhões. É uma briga de gigantes ¿ afirma um especialista em aviação.

TAM e Gol confirmam o objetivo de usar os recursos captados para reforço do caixa. Mas evitam falar sobre a existência de uma guerra. Em um ano, a participação da TAM caiu de 52,8% para 44%. A Gol, agora, está a três pontos percentuais da concorrente. Os vicepresidentes da TAM, Paulo Castello Branco, e da Gol, Tarcísio Gargioni, afirmam que a liderança é o que menos importa.

Quem viaja, porém, sente no bolso o esforço das empresas para ganhar passageiros. O ringue principal da guerra aérea é Congonhas, em São Paulo, onde TAM e Gol têm seu centro de distribuição de voos para o país. Em setembro, em promoções, bilhetes chegaram a ser vendidos por R$ 120, caso da ligação entre São Paulo e Porto Alegre. Este mês, a tarifa mais baixa para o trecho sai por R$ 257 na Gol e R$ 283 na TAM, sem taxas. A briga por consumidores se reflete também na inflação. Dados do IPCA mostram que, no acumulado do ano, o item viagem de avião recuou 9,23%.

A redução de preços para atrair consumidores fez com que as empresas ¿jogassem dinheiro fora¿, diz um analista que prefere não se identificar.

Para reforçar o caixa, a TAM comunicou ontem ao mercado que está emitindo U$ 300 milhões (cerca de R$ 514 milhões) em bônus garantidos com vencimento em 2020. No último dia 19, com o mesmo propósito, a Gol encerrou sua oferta de ações, o que resultou em R$ 627,1 milhões.

Liderando os ganhos no Ibovespa (Índice da Bolsa de Valores de São Paulo), ontem os papéis preferenciais (PN, sem direito a voto) da TAM dispararam 6,59%. A alta foi influenciada por rumores de uma fusão com a portuguesa TAP e a angolana TAAG. A fusão foi desmentida pela TAP.

¿ A fusão seria benéfica para a TAM, que tem crescido mais lá fora que no Brasil, onde vem perdendo mercado para a Gol ¿ avalia o analista Leonel Pitta, da Lopes FIlho & Associados.

Executivo da TAM: redução de 25% nas tarifas do setor A briga de TAM e Gol pelo mercado interno, dizem analistas, teve ainda o objetivo de neutralizar o crescimento da Azul, que está com 4,6% de participação, e da Webjet, com 4,8%. Para um especialista, o que se viu em Congonhas foi um dumping, ou seja, venda por preços menores para prejudicar a concorrência.

¿ Tarifa baixas como as praticadas em São Paulo não trazem quase nenhuma rentabilidade. Quem perde mais passageiros é a TAM. Se ela baixa preços, todas baixam, só que a TAM tem mais problemas de caixa. A empresa tem foco no mercado corporativo, que encolheu, além de ter sofrido com um estoque de combustível a US$ 100 o barril ¿ alerta outra fonte.

Gargioni, da Gol, diz que a empresa não tem uma estratégia para conquistar o primeiro lugar: ¿ O foco é a rentabilidade. Estamos agora colhendo frutos, as sinergias das mudanças com a incorporação da Varig, a unificação de operações.

Ele afirma que a Gol nunca perdeu a meta de ter uma operação de baixo custo e baixa tarifa. Afirma que a concorrência é salutar e impede que a empresa se sinta em uma ¿zona de conforto¿. Gargioni ressalta ainda a importâncias das classes C e D: ¿ Há uma nova classe média. São 30 milhões de pessoas. Em oito anos, transportamos 120 milhões de pessoas, das quais 12 milhões voaram pela primeira vez. Em 2010, ampliaremos o Voe Fácil, com parcelamento em 36 meses pelas agências de viagens.

Castello Branco, vice-presidente Comercial e de Planejamento da TAM, também garante que o foco está na rentabilidade. Ele confirma que houve recuo de 25% nas tarifas do setor até o meio do ano, pela maior oferta de assentos, mas diz que já se inicia uma recomposição de 15% nos preços.

¿Há novas entrantes, e estamos com 44% do mercado, até pela oferta de outras empresas. Ter 44% ou 50% não importa. O mais importante é rentabilidade e bom atendimento. A crise nos afetou, sim, pois operamos lá fora. E sentimos redução nas vendas da classe executiva, cuja tarifa custa US$ 3 mil. Mas já iniciamos uma recuperação ¿ diz, destacando ações para classes C e D, como preços menores em horários sem movimento corporativo.