Título: FMI: taxa sobre capital não bastará
Autor: Doca, Geralda
Fonte: O Globo, 24/10/2009, Economia, p. 35
Para o Fundo, o pior da crise já passou na maioria dos países da América Latina
SÃO PAULO. A decisão de taxar em 2% o ingresso de recursos externos foi uma medida pragmática e pertinente adotada pelo Brasil, mas isoladamente não será suficiente para conter a valorização cambial. A avaliação é do diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, Nicolás Eyzaguirre, que apresentou ontem em São Paulo o relatório ¿Panorama Econômico Regional para a América Latina e Caribe¿.
Para o Fundo, o pior da crise já passou para a maioria dos países da região, e o Brasil encontra-se no grupo ¿ com Chile, Colômbia e Peru ¿ cujas economias permitiram a adoção de ações contracíclicas bem-sucedidas.
Além de defender-se do forte ingresso de capitais, o Fundo avalia que o Brasil tem pela frente o desafio de remover de forma ordenada os estímulos (fiscais e monetários) adotados na crise.
¿ Como o crescimento ainda será lento nos Estados Unidos, na Europa e no Japão em 2010, os capitais continuarão sendo dirigidos a Asia, Peru, Colômbia, Chile e Brasil ¿ disse.
Eyzaguirre alertou para as brechas que o sistema financeiro oferece aos especuladores e disse que a entrada maciça de recursos externos tem de ser mitigada com um conjunto de medidas, ¿a começar pela taxação mais ampla possível¿: ¿ Pode ser por meio de financiamentos de importações, subfaturamento de exportações e outros financiamentos disfarçados. Temos de ser pragmáticos e abrir o guarda-chuva quando chove demais.
O Fundo adverte ainda que a crise deixará um legado permanente de perda de produto potencial, fraco consumo privado e elevado endividamento em grandes economias, como a americana, com impactos adversos na América Latina, o que exige cautela na retirada dos pacotes de estímulos. O relatório sugere retirar as medidas fiscais antes das monetárias.
O diretor do FMI advertiu sobre a inconveniência de os países da região terem reservas internacionais elevadas, pois são recursos que poderiam ir para educação ou infraestrutura. Para ele, isso é ¿subsidiar o consumidor americano¿. Eyzaguirre acrescentou que o Fundo deve revisar para cima suas projeções para a economia brasileira, de retração de 0,7% este ano e crescimento de 3,5% em 2010.