Título: Traga as tropas de volta
Autor: Scofield Jr, Gilberto
Fonte: O Globo, 28/10/2009, O Mundo, p. 28
MULHERES DE BURCA fazem compras num mercado de Cabul
UM IDOSO AFEGÃO bebe uma sopa de galinha: tensão no país
Barack Obama não planejava ser um ¿presidente de guerra¿, mas é isso que a História o está compelindo a ser. O país e o mundo têm sorte pelo fato de ele não ter a mentalidade de George W. Bush. Mas o Afeganistão não apresenta o tipo de ¿escolhas falsas¿ que Obama, por natureza, habitualmente rejeita. As escolhas são verdadeiras e terríveis.
Os trágicos eventos dos últimos dias ¿ as mortes de americanos no Afeganistão ¿ nos lembram das decisões que Obama enfrenta. Pelo menos ele reconhece que não pode simplesmente deixar a corrente seguir.
Mas parece que Obama está se inclinando para uma decisão que desapontará falcões e pombas ¿ e, sim, estou conscientemente usando palavras do tempo da Guerra do Vietnã. O debate sobre se ficamos ou vamos embora está destinado a se tornar mais apaixonado quanto mais aumentam as baixas.
Uma pessoa que não merece ser ouvida no debate é Dick Cheney, que nos ajudou a entrar nesse atoleiro. Ao deixarem de lado prematuramente o Afeganistão para fazerem uma invasão desnecessária do Iraque, Bush e Cheney transformaram uma guerra que estávamos ganhando em duas que podemos perder.
A acusação de Cheney de que Obama está ¿hesitando¿ em mandar mais soldados para o Afeganistão é obscena, pois ele e Bush ignoraram por quase um ano o pedido dos militares para mandarem mais tropas. Cheney esperar que Obama aceite a análise do governo Bush da situação, em vez de rever os dados, é uma piada doentia.
Dito isso, o Afeganistão agora é a guerra de Obama. E suas vitórias consideráveis na busca de reformas no plano doméstico não lhe ensinam nada sobre como proceder lá. Seu método é evitar traçar linhas claras entre opções mutuamente excludentes. Na questão da saúde, por exemplo, queria tanto uma cobertura universal como controlar gastos de longo prazo. A lei que está sendo discutida parece que não conseguirá fazer nem uma coisa nem outra, mas fará um pouco dos dois.
Mas as decisões no Afeganistão são do tipo ¿ou um ou outro¿. Obama pode decidir implantar uma estratégia de contrainsurgência ou uma de contraterrorismo. Não pode fazer as duas. Se escolher contrainsurgência, deve mandar tropas suficientes para isso. Se não quiser mandar esse grande número de soldados, terá de optar pelo contraterrorismo ou fazer outra coisa.
O general Stanley McChrystal, comandante americano no Afeganistão, está pedindo mais 40 mil soldados. Obama está certo em examinar os cálculos do general, mas não faria sentido tentar um meio termo. Isso colocaria mais americanos em risco sem dar a McChrystal os recursos que ele diz precisar.
Invadimos o Afeganistão para garantir que o país nunca mais seria usado para lançar ataques contra os EUA. Esta missão foi completada, e o único objetivo deveria ser mantê-la assim ¿ seja com o lugar sendo governado por Hamid Karzai ou pelo Talibã. A campanha de contrainsurgência que Obama está estudando parece ser um passo no despenhadeiro mais escorregadio que se pode imaginar. Não importa se o passo é hesitante ou firme.
De vez em quando, um ¿presidente de guerra¿ tem de decidir começar a trazer os soldados de volta para casa. É isso que Obama deve fazer.
EUGENE ROBINSON é colunista do ¿Washington Post¿