Título: Diplomata desertor no Afeganistão
Autor: Scofield Jr, Gilberto
Fonte: O Globo, 28/10/2009, O Mundo, p. 28
Funcionário do Departamento de Estado dos EUA é o primeiro a pedir demissão em protesto contra a guerra
UM SOLDADO DE uma força-tarefa dos EUA descansa durante missão no Afeganistão: falta de estratégia para a guerra foi criticada por alto funcionário do governo, que se demitiu
Matthew Hoh, 36 anos, um ex-fuzileiro naval que lutou no Iraque antes de ser empregado este ano como diplomata do Departamento de Estado e servir no Afeganistão, tornou-se o primeiro funcionário do governo americano a pedir demissão do cargo em protesto contra o conflito. A ocupação, segundo ele, serve somente para aumentar o movimento de insurreição num país que, no seu entender, vive na verdade uma guerra civil. Na carta enviada ao Departamento de Estado e que foi objeto de reportagem ontem no jornal ¿The Washington Post¿, Hoh reclama da falta de estratégia dos EUA para o país.
¿Perdi o entendimento e a confiança nos propósitos estratégicos dos EUA¿, disse ele na carta de quatro páginas enviada ao Departamento de Estado em 10 de setembro. ¿Tenho dúvidas e reservas sobre nossa atual estratégia, e sobre a planejada estratégia futura, mas minha renúncia se baseia não em sobre como estamos tratando esta guerra, mas no por quê e no objetivo¿.
Outubro, o mês mais sangrento
O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse ontem que o presidente Barack Obama já sabia da história, e que não se sentia pressionado a tomar logo uma decisão sobre o Afeganistão, como vêm pedindo militares, republicanos no Congresso e a opinião pública do país. Anteontem, em discurso a Fuzileiros Navais e militares da Marinha na Flórida, Obama rebateu as críticas e disse que os soldados americanos merecem uma estratégia clara:
¿ Nunca me apressarei na decisão solene de mandá-los no caminho da dor ¿ disse o presidente.
Mas as pressões permanecem, especialmente diante de novas baixas. Ontem, explosões mataram oito soldados e um intérprete no Sul do Afeganistão, um dia após 14 americanos morrerem num acidente envolvendo dois helicópteros. O total de baixas em outubro chegou a 55, a maior em toda a guerra de oito anos no país.
Richard Holbrooke, o representante especial do Departamento de Estado para Afeganistão e Paquistão, admitiu que a carta foi avaliada por vários diplomatas e pela Casa Branca. Ele discorda quando Matthew Hoh diz que ¿esta é uma guerra que não vale lutar¿, mas ¿concorda com muito de sua análise¿. Holbrooke convidou-o a integrar seu time em Washington. O ex-fuzileiro aceitou, mas mudou de ideia depois.
¿ Eu reconheço as implicações desta escolha para a carreira, mas não era a melhor coisa a fazer ¿ disse Hoh, que negou ser ¿um pacifista hippie fumador de maconha que acha que todo mundo deve se amar¿. ¿ Há muitos caras que precisam ser mortos.
Para Hoh, os afegãos estão atacando as forças americanas pelo simples fato de o país estar sendo ocupado militarmente. Ao mesmo tempo, diz ele na carta, a população não confia no governo de Hamid Karzai, e se torna ainda mais hostil.
¿Enquanto o Talibã é uma presença maligna e a al-Qaeda baseada no Paquistão precisa ser confrontada, os EUA estão pedindo a seus soldados que morram no Afeganistão pelo que é essencialmente uma guerra civil. E eu decidi falar isso publicamente porque quero que as pessoas em Iowa, Arkansas, Arizona chamem seus congressistas e digam: `escuta, isso não é certo¿¿.
Hoje, Obama deve assinar uma lei que autorizará pagamentos a integrantes moderados do Talibã que renunciem à milícia. A medida é similar a um programa que foi empregado no Iraque, para reintegrar insurgentes à sociedade.