Título: Irã pedirá mudanças em acordo proposto pela AIEA
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Fonte: O Globo, 28/10/2009, O Mundo, p. 28

País deve se negar a exportar de uma só vez 70% de seu urânio de baixo enriquecimento, como quer a agência nuclear

TEERÃ. O Irã anunciou ontem que vai sugerir ¿mudanças importantes¿ à proposta feita pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU semana passada, segundo a qual o país exportaria 70% de seu urânio de baixo enriquecimento à Rússia e à França até o fim do ano. As ressalvas ao acordo diriam respeito à forma como o material será despachado. Segundo a emissora estatal iraniana Press TV, o país propõe que o envio seja feito em etapas, e não de uma só vez ¿ o que em tese daria a Teerã a chance de repor rapidamente o urânio exportado após cada parcela enviada. A União Europeia, temerosa de que Teerã esteja ganhando tempo para produzir uma bomba atômica, já estuda sanções.

Segundo o também canal estatal Al-Alam, um alto funcionário do governo afirmou que Teerã concorda com a estrutura principal do plano, mas dará sua resposta oficial nas ¿próximas 48 horas¿ ¿ uma semana após o prazo dado pela AIEA. O canal não deu detalhes das emendas a serem sugeridas ao acordo, apresentado pela agência atômica na terça passada, em Viena, ao Irã e a seus três interlocutores, EUA, Rússia e França.

Mas ontem o líder da Comissão de Política Externa e Segurança Nacional do Parlamento iraniano, Alaeddin Boroujerdi, reiterou as suspeitas de que o país proporá o parcelamento do envio. Segundo ele, se o Irã concordar em despachar seu urânio, ¿isso não deverá ser feito de uma só vez¿.

Chanceler francês ameaçou com novas sanções

Autoridades do país já deram indicações ainda de que podem sugerir a exportação de menos do que os 70% de urânio de baixo enriquecimento inicialmente propostos.

O chanceler francês, Bernard Kouchner, reagiu com impaciência. Ele afirmou que o Irã pretende alterar completamente a proposta, e que táticas de protelação poderão ser punidas com sanções internacionais:

¿ Esperamos há quase três anos para ver a luz no fim do túnel. O tempo está se esgotando para o Irã. Essa região (Oriente Médio) é inflamável. É um círculo explosivo e não acredito que nesse contexto o Irã possa ficar tentando ganhar tempo.

A União Europeia já estaria estudando novas sanções. O chefe de Política Externa do bloco, Javier Solana, também reagiu, afirmando que o acordo é bom e ¿não necessita de mudanças fundamentais¿.

Segundo Mohamed ElBaradei, diretor da AIEA, o Irã deveria aceitar a proposta para evitar o clima de desconfiança da comunidade internacional sobre seu programa nuclear.

¿ Nosso objetivo é reduzir a tensão. Remover esse material ofereceria um ano de negociações em paz e tranquilidade ¿ disse. ¿ Isso permitiria aos iranianos mostrar que estão dizendo a verdade, se for este o caso, ao falar que seu programa de enriquecimento de urânio tem fins pacíficos.

Em teoria, o acordo inicial, se aceito, privaria Teerã da quantidade de urânio necessária para construir uma bomba atômica ¿ o maior temor do Ocidente. Segundo especialistas, uma tonelada de urânio de baixo enriquecimento é necessária para a produção de uma ogiva nuclear. O plano prevê que o Irã exporte 1,2 tonelada da 1,5 tonelada desse material que possui à Rússia, onde o urânio seria enriquecido a até pouco menos de 20%. Depois, seria encaminhado à França e convertido em varetas de combustível. Estas voltariam ao Irã para alimentar um reator a ser usado para fins medicinais.

No fim de semana, inspetores AIEA chegaram ao Irã para vistoriar o centro iraniano de enriquecimento de urânio de Fordo, perto de Qom, cuja existência era um segredo de Estado revelado apenas em setembro.