Título: Resíduo da teoria do dominó
Autor: Vaz, Viviane
Fonte: Correio Braziliense, 31/05/2009, Mundo, p. 19

A Organização dos Estados Americanos (OEA) é filha do pós-Segunda Guerra Mundial, nascida em 1948 de braços dados com a Guerra Fria. Não por acaso sua sede está em Washington: os Estados Unidos, àquela altura, emergiam como potência econômica, militar e ¿ por consequência ¿ política de escala global. As Américas, como rezava a Doutrina Monroe, tinham de ser o quintal incontestável.

Se na Europa e Ásia o desfecho do conflito com a Alemanha nazista resultou na divisão de esferas de influência com a União Soviética, no Hemisfério Ocidental o Tio Sam antecipou-se a qualquer manobra do adversário. E a OEA tornou-se peça-chave para a Casa Branca no âmbito da ¿teoria do dominó¿: era preciso conter o comunismo e impedir que regimes aliados caíssem sucessivamente, como pedras de dominó.

Foi sob a bandeira do anticomunismo que o ¿sistema interamericano¿, como ficou conhecido, passou a ser instrumental para a política hemisférica de Washington. Em 1954, a OEA deu anteparo político à intervenção militar da CIA norte-americana contra o governo (constitucional e eleito) do esquerdista de Jacobo Arbenz, na Guatemala. Em 1965, criou uma Força Interamericana de Paz, da qual participaram tropas brasileiras, para atuar na República Dominicana ao lado dos golpistas que haviam deposto Juan Bosch, outro nacionalista de esquerda.

Naturalmente, Cuba tornou-se o cerne existencial da OEA no plano da Guerra Fria, desde que Fidel Castro proclamou o caráter socialista da revolução, em 1961. No ano seguinte, depois de fracassada a tentativa de invasão militar conduzida pela CIA e exilados cubanos na Baía dos Porcos, a Casa Branca acionou seu braço político. O regime de Havana foi excluído por ser ¿marxista-leninista¿.

Desde 1991, coincidindo com o fim do ciclo de ditaduras militares patrocinadas ou apadrinhadas (em maior ou menor grau) por sucessivos governos em Washington, a OEA tem uma ¿cláusula democrática¿. Ela permite suspender os direitos de países onde for quebrada ¿a ordem constitucional e democrática¿. Poderia, naturalmente, ser invocada como obstáculo ao retorno de Cuba. Mas, passado quase meio século, é em torno da resolução de 1962 que os EUA e a América Latina travam o cabo de guerra pela redefinição dos termos e rumos do sistema continental.