Título: Senadores apelam ao Itamaraty
Autor: Vaz, Viviane
Fonte: Correio Braziliense, 22/05/2009, Mundo, p. 21

Comissão de Relações Exteriores envia requerimento ao ministro Celso Amorim para que reconsidere a decisão de apoiar um egípcio, e não o pré-candidato brasileiro, à direção da agência da ONU

O egípcio Faruk Hosni tem o apoio do Brasil: ministro da Cultura é acusado de dar declarações que pregam o antissemitismo As promessas de apoio do Brasil ao ministro da Cultura egípcio Faruk Hosni para ocupar a direção-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) voltaram à pauta de discussões ontem no Senado. A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) aprovou um requerimento do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) pedindo que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, reconsidere a decisão de não respaldar uma possível candidatura do atual diretor adjunto da Unesco, o brasileiro Márcio Barbosa, para a direção-geral da entidade.

¿Causaram estranheza as frágeis justificativas apresentadas pelo Itamaraty para a opção pelo candidato egípcio. O Itamaraty justificou se tratar de um muçulmano. Todas as religiões merecem nosso respeito, mas elas não podem ser a razão da indicação para uma entidade mundial que cuida de temas plurais, como educação, cultura e ciência. Alegou ainda que o Egito nunca ocupou a direção-geral da Unesco, esquecendo-se que o Brasil também não¿, justificou Azeredo.

O senador Fernando Collor (PTB-AL) concordou. ¿É difícil para esta comissão e para o Congresso Nacional admitir que o Brasil opte pelo senhor Faruk¿, disse Collor, destacando que o egípcio teria se pronunciado favorável à queima de todos os livros em hebraico encontrados nas bibliotecas de seu país. ¿Algo tão absurdo que em pleno século 21 exista uma pessoa pensando dessa forma, que nos remete ao obscurantismo, à Inquisição, ao pensamento único¿, defendeu. Para o senador, o fato de o ministro egípcio já ter apoio de ¿52 países¿ não é relevante. ¿Isso não significa que o Brasil tenha de entrar nessa disputa sempre para ganhar. Nós temos de marcar uma posição¿, opinou.

O senador Eduardo Suplicy aceitou o requerimento, mas ponderou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Amorim devem ter ¿razões de profundidade¿ para justificar a escolha pelo egípcio. ¿Imagino que o próprio ministro Celso Amorim venha a expressar o desejo de aqui comparecer para dar uma explicação e se ele avaliar que deve manter a decisão, eu respeitarei¿, disse. O requerimento incluiria inicialmente apenas o nome do diretor-geral adjunto da Unesco, mas, por sugestão de Suplicy, também se mencionará a candidatura do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), outro que manifestou interesse em substituir o japonês Koichiro Matsuura à frente da Unesco. O prazo para apresentação das candidaturas a diretor da entidade termina em 31 de maio.

Barbosa estuda se lançar como candidato mesmo sem o apoio do Planalto, mas favorecido por outros países. Amorim argumenta que o Brasil está apenas respeitando a coordenação das nações islâmicas em torno da candidatura de Hosni e não pretende entrar em choque com esse bloco de países emergentes. ¿O Brasil tem uma única posição e não voltará atrás¿, disse nesta semana, durante visita à Arábia Saudita.

Em artigo publicado ontem no jornal francês Le Monde, três intelectuais ¿ o filósofo Bernard-Henri Lévy, o escritor e Nobel da Paz Elie Wiesel, além do cineasta Claude Lanzmann ¿ acusam Hosni de antissemitismo. Eles pedem ao governo do Egito que retire a candidatura do ministro da Cultura e evite uma provocação ¿tão odiosa, tão incompreensível¿ que levaria à derrocada da Unesco como instituição internacional.