Título: Sob a sombra da ilegitimidade
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Fonte: O Globo, 03/11/2009, O Mundo, p. 25
Ocidente pressiona Karzai a realizar mudanças no Afeganistão após reconhecer vitória do presidente com cancelamento do 2º turno
CABUL
As conturbadas eleições afegãs não terão mais um segundo turno, segundo decisão da Comissão Eleitoral Independente (CEI) do país, que declarou ontem o presidente Hamid Karzai reeleito. Mas a vitória de Karzai não é completa: com a retirada, na véspera, de seu adversário da disputa e o cancelamento da nova votação, as dúvidas geradas pela fraude maciça no primeiro turno não serão apagadas, levantando questões sobre a legitimidade de seu segundo mandato.
Sem deixar a crise para trás, Karzai inicia o novo mandato de cinco anos como um presidente enfraquecido, que enfrenta a desconfiança de aliados ocidentais. As mensagens de parabéns pela reeleição foram acompanhadas pela pressão por reformas, num reflexo dessa situação.
O governo dos Estados Unidos, que estuda enviar mais tropas ao país, emitiu logo um comunicado parabenizando Karzai e considerando-o o ¿governante legítimo¿. Mas o presidente Barack Obama, em ligação a Karzai, pressionou-o a combater a corrupção, pediu ações concretas e disse que vai monitorar a situação para garantir que progressos estão sendo realizados.
¿ A prova não virá em palavras, mas em fatos ¿ ressaltou Obama.
Em visita surpresa, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, chegou ontem ao Afeganistão.
Ban disse que o processo eleitoral afegão foi difícil e estimulou o presidente a formar ¿um governo que tenha tanto o apoio dos afegãos como da comunidade internacional¿.
A pressão não partiu apenas dos EUA e da ONU. O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, telefonou para Karzai e cobrou um esforço maior para combater a corrupção e reduzir a influência dos traficantes de drogas no país. O ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Guido Westerwell, disse esperar ações determinadas para combater a corrupção e aumentar a segurança. E a França deixou claro que espera um governo de união nacional: ¿ Apoiamos um sistema no qual Karzai e seu principal adversário, (o ex-chanceler Abdullah) Abdullah, trabalhem juntos. Isso seria um passo em direção à paz ¿ destacou o chanceler Bernard Kouchner.
Abdullah sai fortalecido como líder da oposição
O primeiro turno, em 20 de agosto, foi marcado por uma fraude maciça, levando uma comissão organizada pela ONU a invalidar um terço dos votos do presidente. Somente após a pressão, principalmente dos EUA, Karzai concordou com o segundo turno.
Mas o ex-chanceler Abdullah Abdullah, seu principal rival nas urnas, desistiu no domingo da disputa, após não ter atendida sua exigência sobre a demissão de funcionários da comissão eleitoral.
Ele ontem chamou a decisão da CEI de golpe de Estado e disse que um governo que chega ao poder sem eleições não é legítimo.
O cancelamento representou, em parte, um alívio para os organizadores, que tentavam realizar o segundo turno no dia 7, lutando contra o tempo, a aproximação do inverno e o temor de uma nova onda de violência e intimidação dos eleitores pelo Talibã. Segundo o presidente da CEI, Azizullah Ludin, a medida foi tomada para poupar os afegãos de gastos e riscos.
¿ A CEI declara Hamid Karzai presidente porque venceu o primeiro turno e é o único candidato no segundo turno ¿ disse Ludin, afirmando que a Constituição afegã só prevê o segundo turno entre dois candidatos Apesar da vitória ¿ ainda que incompleta ¿ de Karzai, não se pode considerar Abdullah totalmente derrotado. Analistas dizem que o exchanceler emerge como o líder da oposição afegã, antes muito dividida. Por sua vez, Karzai, da etnia pushtu, sofre forte pressão do Ocidente para ceder alguns cargos a Abdullah, cuja base de apoio é formada principalmente por tadjiques.
Um governo afegão fraco seria um golpe para Obama, no momento em que estuda se enviará ou não mais 40 mil soldados ao país.
¿ A credibilidade de Karzai será decidida por suas ações nos próximos dias ¿ disse uma fonte ocidental em Cabul. ¿ Seu primeiro teste será a formação do Gabinete. Se ele fala seriamente sobre reformas, precisamos ver isso