Título: Quando a proteção vira uma ameaça
Autor: Motta, Cláudio; Araújo, Vera
Fonte: O Globo, 04/11/2009, Rio, p. 12

A TORCIDA JOVEM do Fla é escoltada pela PM antes do jogo

O AGRESSOR pouco antes de quebrar um copo no rosto de um rapaz

Com amigos ao lado, os jovens se sentem mais fortes e protegidos. Até quem antes saía sozinho, passa a andar em grupo, num instinto de defesa. No entanto, quando vão a estádios, boates, festas e até ao colégio, essas galeras se enfrentam, muitas vezes em brigas de grandes proporções. Especialistas alertam que esse comportamento de andar em grupo aumenta os riscos de confusão. Segundo a socióloga Miriam Abramovay, a violência é um elemento de autoafirmação comum na classe média, já que os jovens querem ser reconhecidos pela sociedade:

¿ Os grupos dos chamados pitboys, por exemplo, fazem de tudo para chamar atenção, inclusive para aparecerem nos jornais, pois entre seus pares, eles passam a ser os heróis. Isso traz status, mas também é um perigo para todos. É importante ressaltar, no entanto, que formar grupos é saudável.

Jovem de classe média de Laranjeiras, W., de 18 anos, passou um sufoco quando o ex-namorado de sua namorada resolveu tomar satisfações com ele. A emboscada aconteceu na rua, quando ia para uma festa, com a nova namorada e mais alguns amigos:

¿ Estava distraído e levei um soco do ex-namorado dela. Quando olhei para o outro lado, havia 20 moleques atravessando a rua. Estava chovendo. Resolvi correr, meu tênis desamarrou. Meu celular e minha carteira começaram a escorregar da minha cintura. Quando me distraí para segurá-los, eles me alcançaram. Caí no chão e fiquei na posição fetal para me proteger. Eles me bateram muito. Deram chutes. Tinha um cara que estava de gesso e me acertou na cabeça. Só consegui me salvar porque a minha namorada se jogou em cima de mim.

As gangues, que se identificam por bairros da Zona Sul, brigam pelo domínio de territórios. Invadem festas quando não são convidadas, pulando o muro ou burlando a segurança. Algumas, por exemplo, têm até nomes: Copalibã (mistura de Copacabana e talibã) e Farmegalistão (junção da Rua Farme de Amoedo, em Ipanema, com Afeganistão).

Depois de ser agredido no rosto com um copo, numa boate da Barra, em agosto último, o estudante de direito I., de 24 anos, só sai de casa com os amigos. O agressor responde a inquérito por lesão corporal gravíssima:

¿ Fiquei com uma cicatriz enorme no nariz. Já fiz plástica. Fiquei dois dias internado. As pessoas saem à noite com o intuito de praticar violência, mesmo sem te conhecer.

O psiquiatra Jairo Werner explica que as galeras ganham mais força pelo fato de os jovens terem menos referências para a formação de suas identidades:

¿ O grande papel do jovem é ultrapassar fronteiras e o da geração anterior, delimitar os espaços. Quando eles não são bem delimitados, como vem acontecendo, os jovens começam a ter a antivirtude como modelo.

O bullying, ato de violência física ou psicológica, também é frequente nas escolas. Num colégio particular da Zona Sul, há quatro anos, o adolescente, J., então com 11, era liberado dez minutos mais cedo para ir ao recreio e saía antes dos colegas para não apanhar. Isso aconteceu porque, na primeira semana de aula, sem qualquer motivo, lhe deram uma cotovelada.

¿ Saí cuspindo sangue. Eu lanchava correndo, na enfermaria, senão me batiam. Cansei de falar com a diretora, mas ela não fazia nada. Quando ia ao banheiro, se tivesse um deles me perseguindo, ficava preso lá dentro. Eu ficava tão deprimido que, em casa, batia a cabeça na parede ¿ conta J., que diz só ter superado o problema depois que trocou de escola.

Vítima de bullying fez caratê para se defender

Hoje namorados, V. e C. sofreram bullying na escola. Ele foi agredido em praticamente todo o ensino fundamental. Ela era sempre eleita a mais feia da turma e não conversava com ninguém enquanto estava no colégio.

¿ Cresci sendo agredido. Marcas que vão ficar para sempre. Um dia, eu os enfrentei. Passei a fazer caratê e consegui superar. O bullying é uma doença social que precisa ser contida ¿ conta V., 26 anos, advogado.

Segundo a professora da UFRJ, psicanalista e doutora em psicologia Maria Vitória Maia, o bullying explora as fragilidades dos agredidos e revela a falta de limites do agressor:

¿ Os pais perderam os referenciais, não conseguem dar limites. Querem ser amigos dos filhos, mas sem desempenhar as funções de pai e mãe. Por isso, são ¿adultescentes¿. Por outro lado, há uma erotização da infância, que tornou-se um grande mercado. Tem tanto especialista para cuidar de tudo que a autoridade dos pais fica diluída. Crianças têm agenda de executivo: caratê, balé, inglês etc.

¿Young, queremos o teu sangue¿. Com esse grito de guerra, a Torcida Jovem do Flamengo chegou ao Maracanã no último Fla-Flu do Campeonato Brasileiro. Apesar da escolta policial, houve confrontos nas imediações do estádio. Clássico seguinte, contra o Botafogo, integrantes de facções diferentes de torcidas do Flamengo brigaram. Os confrontos muitas vezes são marcados com antecedência, via internet.

A violência nos estádios é crescente. Segundo o sociólogo Maurício Murad, 42 mortes foram registradas e comprovadas no espaço do futebol entre 1999 e 2008, média anual de 4,2 mortes. Nos dois últimos anos pesquisados, ocorreram sete óbitos por ano. Levantamentos até 19 de julho revelam seis mortes. Ele acredita que o ano termine com dez a 12 vítimas da violência nos estádios do Brasil:

¿ Os agressores têm certeza da impunidade. Não se deve proibir as torcidas, porque se não elas se aproximam da marginalidade. Mas o estado tem que ter um controle efetivo e punir os responsáveis pelas agressões. Todo mundo sabe onde as brigas acontecem. Além disso, 83% das torcidas são formadas por jovens de 15 a 24 anos e só de 5% a 7% dos integrantes desses grupos são vândalos.