Título: Sem medo do calote
Autor: Novo, Aguinaldo; D"Ercole, Ronaldo
Fonte: O Globo, 05/11/2009, Economia, p. 29
Após recorde na inadimplência, bancos planejam expandir crédito em até 25%
Depois de registrarem inadimplência recorde até setembro, os grandes bancos privados avaliam que o pior da crise já passou e fazem planos de aumentar a concessão de empréstimos. O presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, previu ontem que a carteira de crédito do banco deve avançar no mínimo 20% em 2010, retomando o ritmo de alta registrado até meados de 2008. O número leva em conta a previsão de expansão de 5,4% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país). O Itaú Unibanco espera crescimento de 20% a 25% no volume de financiamentos.
No Bradesco, considerando atrasos superiores a 90 dias, a inadimplência saltou de 3,4% em setembro de 2008 para 5% no mesmo mês deste ano, o maior índice desde dezembro de 2007. No Itaú Unibanco, passou de 3,8% para 5,9% na mesma comparação, também o maior desde dezembro de 2007.
Os efeitos da crise aparecem no números divulgados até agora pelos dois maiores bancos privados do país. O lucro líquido do Itaú Unibanco recuou 11% no terceiro trimestre e 15,7% frente a setembro de 2008. No balanço publicado ontem, o Bradesco registra ganho de R$5,831 bilhões nos nove primeiros meses deste ano, uma queda de 3,1% em relação ao mesmo período de 2008. No terceiro trimestre, o recuo chegou a 5,2%. Como aconteceu com o concorrente, o Bradesco registrou menor variação da carteira de crédito. O total de empréstimos atingiu R$215,5 bilhões em setembro, alta de 1,3% sobre junho e de 10,2% sobre setembro de 2008.
Lojas renegociam dívidas com clientes
O resultado do Bradesco fez suas ações caírem 0,72% ontem, contra valorização de 2,03% do Ibovespa, principal indicador da Bolsa de São Paulo, refletindo a preocupação do mercado também com indicadores como menor receita de serviços e maior despesas administrativas e com pessoal. Segundo a analista Laura Schuch, da Ativa Corretora, havia expectativa de resultados acima das previsões, depois que Itaú Unibanco superou as estimativas de analistas. Um dos aspectos negativos no Bradesco foi o retorno sobre o patrimônio líquido médio (ROAE), de 21,8%, contra 22,4% do concorrente. No trimestre anterior, ficara em 23,7% no Bradesco, acima do 21,1% de Itaú Unibanco. Ontem as ações preferenciais do Itaú Unibanco subiram 3,07%.
O analista João Augusto Sales, da Lopes Filho & Associados, observa que os ganhos de tesouraria do banco foram ruins:
- O Itaú conseguiu gerar créditos para sua carteira mais rapidamente que o Bradesco e ainda ganhou com operações em tesouraria, com derivativos. O Bradesco foi mais conservador, preferindo títulos públicos.
Em contraponto a esses números, o presidente do Bradesco aposta na aceleração da economia nos próximos meses, com aumento da renda. Com isso, haverá queda da inadimplência e mais espaço para emprestar. Trabuco estima que os índices de atraso devem recuar para menos de 4% em 2010.
Ele nega que os bancos privados tenham perdido terreno para os públicos, que durante a crise elevaram sua participação no volume de empréstimos. Compilação da Austin Rating mostra que a participação de Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal cresceu de 28,4% para 33,9% até junho deste ano. Mas o Bradesco mostra disposição para revidar e já anunciou ontem o aumento do prazo máximo em algumas linhas de crédito. No CDC, por exemplo, esse prazo foi de 36 para 48 meses; no crédito pessoal, pode chegar agora a 60 meses.
- Já queremos aproveitar esses dois últimos meses de 2009, que será um ano de transição, já como preparação para um 2010 de grande crescimento - disse Trabuco.
Analistas compartilham as expectativas dos bancos. Para o presidente da Austin Rating, Erivelto Rodrigues, a inadimplência deve recuar nos próximos meses da média atual acima de 5% para a faixa histórica de 3,5%. Pelos dados do Banco Central, empréstimos com atraso superior a 90 dias recuaram de 5,9% em julho e agosto para 5,8% em setembro. Segundo a Serasa, o pior momento foi em março, com alta de 16,1%
Especialistas do Centro de Estudos do Clube dos Diretores Lojistas do Rio de Janeiro afirmam que a inadimplência deve cair este mês, com os consumidores quitando dívidas de olho nas compras de Natal.
- Com avanços na massa salarial e na renda, os números de inadimplência podem cair até o fim do ano. O décimo terceiro contribui - disse João Gomes, economista da Fecomércio-RJ.
Nas Casas Bahia, por exemplo, a inadimplência se manteve inferior a 10%. A empresa começou em setembro uma campanha de renegociação de dívidas, que vai até janeiro de 2010. Até 15 de outubro, 22 mil quitaram suas dívidas. A Leader também está renegociando com seus consumidores, oferecendo descontos de até 50%.
- Estamos no melhor período do ano. Muitas pessoas aproveitam a primeira parcela do décimo terceiro para quitar dívidas e pensar nos presentes de Natal - disse o diretor geral da LeaderCard, Fernando Labanca.