Título: Escutas mostram que houve briga entre empresas
Autor: Amora, Dimmi; Araújo, Vera
Fonte: O Globo, 05/11/2009, Rio, p. 15

Empresários disputavam obra em núcleo de combate a corrupção; outro empreiteiro diz que abriria firma com `laranjas`

A Construtora OCP, uma das 12 empresas acusadas de participar do esquema de fraudes à licitação da operação Monopólio, foi a responsável pela obra do Núcleo de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro da Polícia Civil. O órgão, criado há pouco mais de um ano, foi o responsável pela operação que acabou desbaratando o esquema do preço combinado entre empresas.

De acordo com as gravações autorizadas pela Justiça, as empresas tentaram fazer um acordo para que a obra entrasse numa fila de empresas, que se formava para vencer as concorrências. O delegado Flávio Porto explicou que as empresas faziam um acordo prévio para determinar quem ganharia a concorrência. A que ganhava apresentava um preço próximo ao estimado (sem dar desconto ao órgão público). As outras, em comum acordo, apresentavam propostas com preços muito elevados, sem documentos, ou se retiravam da disputa. Quem vencia a concorrência ia para o fim da fila.

Os diálogos mostram que, na construção da sede do laboratório contra a corrupção, a OCP não respeitou a fila, já que a obra seria dada para outra empresa, a Copa. Houve uma discussão e o responsável pela OCP diz que vai partir para a briga e acaba vencendo a licitação. O empresário era um dos alvos das escutas e fala várias vezes de corrupção em diversos órgãos públicos do estado e da prefeitura. Num diálogo com outro empresário, ele diz que dará desconto de 8%, segundo ele, porque terá que pagar propina:

¿ Oito (por cento de desconto) para mim é um número bom. Depois tenho que dar mais três lá dentro, são onze ¿ diz o empresário.

Segundo a denúncia encaminhada à Justiça pela Polícia Civil, as obras foram superfaturadas em até R$126 mil. De acordo com documentos obtidos pelo GLOBO, foi reservado para pagamento dessa obra em 2008 o valor de R$526 mil.

Em mais uma conversa, dizendo estar sem receber da prefeitura do Rio, o dono da OCP tenta convencer o diretor de uma companhia a deixá-lo passar na sua frente em outra obra. O outro empresário afirma que não tem como deixar passar a frente, mas que vai conversar com seu sócio. O empresário também planejava abrir uma firma em nome de "laranjas" para facilitar suas vitórias nas concorrências.

Numa outra escuta ambiental gravada pelos policiais, o representante de mais uma empresa fala sobre como funciona o esquema. Segundo ele, a fila acontece em todos os órgãos. Há citações nos diálogos às empresas públicas Emop, Cehab e Riourbe, entre outras.

¿ Não é só aqui (Polícia Civil), não. Qualquer lugar é a mesma coisa. Emop, já tem uma fila. Tem 20 empresas, tem vinte licitações, aí vai o primeiro da fila e coloca o preço mais baixo.