Título: Mantega: é preciso evitar atração fatal de capitais
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 06/11/2009, Economia, p. 21
Ministro diz que tomou medidas para conter exuberância irracional e que pedirá no G-20 unidade a políticas cambiais
Correspondente
LONDRES. O Brasil chegará à reunião dos ministros da área econômica e presidentes dos bancos centrais dos países do G20, que será realizada hoje e amanhã em Saint Andrews, na Escócia, com a proposta de que as maiores economias do mundo assumam um compromisso de adotar políticas cambiais homogêneas.
O objetivo é evitar desequilíbrios como o que o governo avalia estar ocorrendo com o real. Ontem, em Londres, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o real está sobrevalorizado e que Brasil precisa evitar uma ¿atração fatal¿ de capitais externos.
O ministro, que participou de um seminário sobre oportunidades de investimentos no Brasil, promovido pelos jornais ¿Valor Econômico¿ e `¿Financial Times¿, disse que, se não fosse o câmbio, o Brasil hoje seria tão competitivo quanto a China.
Dilma: Brasil será 5amaior economia do mundo em 2016 Em entrevista após o seminário, Mantega citou um estudo do banco Goldman Sachs mostrando que, apenas em relação ao dólar, o real apreciou-se em 51% nos últimos tempos.
¿ Temos desequilíbrio cambial no mundo porque países estão tendo comportamentos diferenciados. A China tem sua moeda atrelada ao dólar, e isso causa um desequilíbrio que acaba punindo justamente os países de economia mais sólida. Há analistas chamando a atenção para a possibilidade de bolhas e cabe aos governos ter a responsabilidade que investidores privados às vezes não têm.
Mantega disse ainda que a decisão do Brasil de tributar a entrada de capitais estrangeiros será usada no G-20 como moeda de barganha nas discussões.
¿ Cada país tem que ceder um pouco nos seus interesses.
Nós demos um passo importante com o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). A crise nos mostrou que não agir sobre desequilíbrios não acaba bem.
Entretanto, segundo Mantega, o IOF não foi o único responsável pela forte redução na entrada de dólares no país no fim do mês passado, porque este foi um período de volatilidade nos mercados internacionais. Mas o ministro ressaltou que o IOF contribuiu para reduzir o apetite dos investidores, que caminhava ¿em direção a excessos¿.
¿ Tivemos uma exuberância que foi racional. Por não querermos que se torne irracional é que tomamos medidas.
No seminário, discursando em português, Mantega disse que o governo quer impedir o excesso de otimismo com o Brasil.
¿ É importante evitar um excesso de atração, uma fatal atraction (atração fatal).
Já a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, previu que a economia brasileira poderá a ser quinta do mundo em 2016, aproveitando para brincar com Mantega, que citara projeções da consultoria Economist Intelligence Unit de que a ascensão ao quinto posto só ocorrerá por volta de 2026: ¿ Permitam-me ser mais otimista que o ministro Mantega.
Além de defender a adoção de políticas cambiais homogêneas, o Brasil poderá endossar, na reunião do G-20, a proposta dos europeus para restringir o pagamento de bônus para executivos do mercado financeiro.
Mantega acenou com um alinhamento à posição defendida por países como Reino Unido, Alemanha e França em prol de uma espécie de moratória nessas compensações em dinheiro ¿ que seriam substituídas por ações das empresas e pagas só depois de alguns anos.
¿ Mudança de regras para os bônus faz sentido. O sistema capitalista tem que premiar esforço, não a irresponsabilidade