Título: Em Minas, a primeira-irmã e conselheira
Autor: Fabrini, Fábio
Fonte: O Globo, 08/11/2009, O País, p. 12
Com atuação discreta, Andrea é influente nas campanhas e no governo do irmão
BELO HORIZONTE.
Irmã mais velha do governador mineiro Aécio Neves (PSDB), Andrea Neves aparece raramente em eventos oficiais e quase nunca é vista subindo as escadarias do Palácio da Liberdade, rumo ao gabinete do presidenciável.
Não costuma frequentar palanques ou falar com a imprensa. No governo de Minas, ocupa uma função de pouca influência, tradicionalmente dada às primeiras-damas.
A descrição é de uma coadjuvante, mas, na visão de aliados e adversários, a jornalista de 50 anos tem, na prática, o papel de uma das principais conselheiras e executivas da administração tucana.
Após coordenar a comunicação na campanha eleitoral do irmão para o governo do estado, em 2003 ela assumiu a chefia do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) ¿ uma associação civil ligada ao governo que desenvolve projetos sociais em parceria com a iniciativa privada. Desde então, se divide entre a entidade e a chefia do Grupo Técnico de Comunicação do Governo, conselho que cuida da imagem do governador, das secretarias, empresas e demais órgãos oficiais.
Os representantes definem da agenda de Aécio aos rumos da verba publicitária do estado.
De 2003 a 2008, as despesas somaram R$ 657,4 milhões
Figura onipresente
No Palácio da Liberdade e no PSDB, Andrea é tida como uma figura onipresente, que dá conselhos e broncas no irmão, um ano mais novo; costura acordos políticos nos bastidores; palpita na escolha de dirigentes do partido em Minas e ajuda a formular políticas públicas. A voz é mansa, com sotaque carioca da juventude vivida no Rio. Mas, nas palavras de uma veterana militante tucana, a autoridade é respeitada e temida: ¿ No governo, quando os chefes querem que uma ordem seja cumprida, dizem que vem dela.
Primogênita de três irmãos, Andrea e Aécio são como unha e carne desde crianças. Nasceram e passaram a infância em BH, quando o pai, o ex-deputado federal Aécio Ferreira da Cunha, político de carreira, se mudou com a família para um curso na Escola Superior de Guerra, no Rio. Era o início dos anos 1970 e eles só voltariam em 1982, para trabalhar na campanha que elegeu o avô, Tancredo Neves, governador de Minas.
¿ Sempre tivemos uma relação muito boa, mas foi no período que precedeu a morte de Tancredo que nos tornamos mais próximos ¿ conta a jornalista, dizendo que sua influência sobre o irmão e o governo dele não é tanta assim: ¿ Aécio não abre mão um milímetro de suas decisões.
Os dois têm perfis distintos.
Enquanto ele gosta de festas, ela prefere os eventos mais íntimos, na casa de amigos. Uma discrição que se reflete na aparência: o figurino predileto é quase sempre calça e camisa ou um vestido de cores sóbrias e corte comportado.
No Rio, ambos se formaram na PUC, no início dos anos 1980, e frequentavam as mesmas rodas.
Mas, na política, Andrea começou na esquerda. Militou no movimento estudantil e ajudou a fundar o PT do Rio. Antes de fazer campanha pelo avô e o irmão, pediu votos para o ex-deputado do PT fluminense José Eudes. No atentado do Riocentro, em 1981, planejado por defensores do regime militar, socorreu o capitão Wilson Dias Machado, que sobreviveu à explosão.
Viajou a Cuba e se encontrou com Fidel Castro, em evento contra a dívida externa organizado pelo PCB.
¿ No aspecto político, meu relacionamento com Tancredo era mais marcado por embates ¿ conta ela.
Andrea se engajou no movimento pelas Diretas, mobilizando jovens e intelectuais. Depois da morte do avô, em 1985, desembarcou da esquerda para, no jargão político, ¿tucanar¿: ¿ Respeito muito o PT. Para a minha geração, o partido era uma bandeira simbólica forte.
Entender a política como instrumento de transformação da sociedade é uma opção de fundo na minha vida. Mas, em cada época, encontrei um espaço em que pudesse materializar isso.
A é c i o f o i chamado pelo avô para ser seu secretário particular em 1982, quando Tancredo venc e u a s e l e i ções em Minas.
Para Andrea, um gesto que clarificava a opção por fazer dele seu sucessor político. Por temperamento, ela diz que escolheu não disputar eleições: ¿ Sou mais fechada, tímida.
Ela nos bastidores, ele no papel de líder: já era assim nos anos 1970, quando a dupla punha a fantasia para desfilar no carnaval de São João del-Rei (MG), terra dos Neves. A escola era a Qualquer Nome Serve, do dramaturgo Jota Dângelo, casado com uma prima deles: ¿ A Andrea saía, mas o Aécio era o coordenador de ala.
Amigo da jornalista, o compositor Fernando Brant diz que, desde a juventude, já se profetizava a dobradinha entre os irmãos.
¿ Quando a conheci, as pessoas falavam que ele seria o herdeiro político e, ela, o cérebro por trás.
Desde 1986, Andrea atuou em todas as campanhas do irmão, mas só trabalhou com ele em exercício de mandatos quando se elegeu governador. Ganhou elogios pela atuação no Servas, mas já no início do governo foi criticada pelo Sindicato dos Jornalistas por supostamente tentar interferir no noticiário de jornais do estado, o que ela nega com veemência. Antes, estudou história da América Latina em Londres e Nova York. E casou-se duas vezes.
Com o jornalista Herval Braz (morto em 1999), teve uma filha, hoje com 15 anos. Recentemente, casou-se com o arquiteto Luiz Márcio Haddad Pereira Santos, segundo suplente de Eduardo Azeredo (PSDB) no Senado.
O sogro é o ex-governador Francelino Pereira, conduzido pelo governo ao Conselho de Administração da Cemig, a principal estatal de Minas.
O ano de 2010 é carregado de simbologia para os Neves, que celebram os 100 anos do nascimento de Tancredo ¿ data que vai render um documentário de Sílvio Tendler. Aécio fará 50 e a morte do avô, 25. Para Andrea, que não aceita falar da disputa com o governador paulista José Serra e se esquiva de perguntas sobre Dilma ou Lula, o projeto da Presidência não é uma obsessão e pode se reapresentar em pleitos futuros para o irmão.
M a s e l a d i z que, quando e l e p r o p õ e u m a a g e n d a pós-Lula, oferece uma experiência política nova. Perguntada sobre o embate entre PSDB e PT, responde: ¿ O contraditório é importante na política, mas é possível construir um espaço de convergência para avanços no país.
Atuação é certa na campanha
Seja a candidatura de Aécio para o Planalto ou o Senado, Andrea vai deixar suas funções no governo para tocar a campanha do irmão. Depois, seus planos são de ficar pelo menos um ano em Londres, para onde viajou ano passado com a filha e o marido para uma temporada de pelo menos seis meses.
Voltou antes, quando ameaçava fracassar a aposta do irmão de eleger Márcio Lacerda (PSB) prefeito de BH.
Andrea entrou na campanha no 2oturno, quando as pesquisas indicavam a vitória de Leonardo Quintão (PMDB). Trabalhou na coordenação com o deputado federal Virgílio Guimarães (PT). O marqueteiro foi trocado e algumas estratégias deram certo. Lacerda ganhou. E Virgílio ficou com uma inusitada impressão da jornalista. Para ele, ela é como Obdulio Varela, o capitão da seleção uruguaia que derrotou o Brasil na Copa de 1950: comete faltas, mas empurra a equipe para a frente: ¿ Se tivesse uma irmã como essa, seria governador.