Título: Uma história de ações e omissões
Autor: Vasconcelos, Adriana; Doca, Geralda
Fonte: O Globo, 16/11/2009, Economia, p. 14
Professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP e ex-diretor de Gás e Energia da Petrobras, Ildo Sauer disse ontem que o apagão não o surpreendeu: "Poderia ter acontecido no ano passado ou em 2011. Foi um conjunto de fatores que estourou agora". O especialista citou o mercado livre de energia, que movimenta 25% do que é consumido no país, como um dos culpados. "A energia neste mercado é vendida a 20% do seu custo", alertou.
Para o senhor, o que deu errado na política energética brasileira que levou ao apagão em 18 estados?
ILDO SAUER: Não foi só produto da coincidência, também é fruto de uma história de ações e omissões. Esse apagão não me surpreendeu. Poderia ter acontecido no ano passado ou em 2011. Foi um conjunto de fatores que está estourando agora. A escuridão acordou para coisas mais relevantes. Foi resultado da organização e gestão do setor. A tarifa é das mais caras do mundo, enquanto alguns privilegiados pagam a tarifa mais baixa do mundo.
Quais os fatores que o senhor identificou como culpados?
SAUER: O mercado livre de energia em 2003 comercializava 50 megawatts (MW) de energia. Hoje, são 12 mil MW médios. Representa 25% da energia consumida no país para abastecer 50% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial. Há uma lacuna regulatória que faz essa energia ser comercializada por 20% do seu custo. São 663 grandes consumidores privilegiados e duas dúzias de comercializadores, alguns pertencentes às distribuidoras.
Como isso prejudica o sistema?
SAUER: Essa energia é produzida pelas estatais que também são responsáveis pela transmissão. A Eletrobrás teve apenas 6% de rentabilidade sobre o patrimônio, enquanto as empresas privadas, cerca de 37%. O mercado livre depauperou as empresas estatais, que ficaram sem dinheiro para investir.
Quais os outros fatores o senhor listaria?
SAUER: Há muitos agentes que estabeleceram regras sob pressão do mercado. Foram lenientes com o novo modelo do setor. Há o Conselho Nacional de Política Energética, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, a Empresa de Pesquisa Energética, a Aneel, a ONS, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, a Eletrobrás, a Agência Nacional de Águas (ANA).