Título: Conduta diferente na Rússia
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Fonte: O Globo, 18/11/2009, O Mundo, p. 28
Em Pequim, presidente não se encontra com dissidentes e limita críticas
PEQUIM. Por programação da Casa Branca ou insistência da China, o presidente Barack Obama tem ficado longe de encontros públicos com chineses liberais, defensores dos direitos humanos e mesmo cidadãos comuns durante sua visita ao país ¿ mostrando uma deferência à aversão dos líderes chineses por tais interações incomum num presidente americano.
Obama teve um encontro segunda-feira com estudantes selecionados e preparados pelo governo. As autoridades chinesas limitaram a exposição de Obama a ponto de um terço dos 40 universitários entrevistados ontem em Pequim não saber do encontro dele com seus colegas de Xangai.
Quando Obama visitou Moscou, em julho, ele se encontrou com ativistas políticos de oposição e jornalistas, e questionou publicamente os processos contra empresários anti-Kremlin.
Na China, em contraste, Obama atenuou as referências aos direitos humanos. Segunda-feira, em Xangai, estudantes pediram que ele comentasse a censura chinesa à internet. Ele respondeu falando sobre os substanciais debates políticos dos Estados Unidos.
Alegada falta de tempo não impediu visitas turísticas
Acadêmicos e ativistas americanos dizem que o governo rejeitou propostas de reuniões em Pequim com ativistas políticos chineses. Autoridades americanas chegaram a cogitar organizar encontros entre Obama e advogados e estudantes chineses, além de Hu Shuli, um conhecido jornalista que perdeu recentemente o controle da revista independente chinesa ¿Caijing¿. Mas estes mesmos funcionários disseram que a falta de tempo, e não considerações políticas, não permitiu que eles ocorressem. Porém, a agenda de visitas turísticas foi mantida.
Por sua vez, o governo chinês se assegurou que Obama não esbarraria em manifestantes, colocando ativistas conhecidos sob severas medidas de segurança. A ONG chinesa Defensores dos Direitos Humanos disse que 20 pessoas foram detidas, colocadas em prisão domiciliar ou proibidas de viajar antes da visita de Obama.
Zhang Zuhua, um influente ativista de direitos civis do país, disse que policiais foram destacados para vigiá-lo. Ele expressou preocupação pelo que chamou de crescente relutância dos EUA em criticar o modo como a China trata os direitos humanos.
Mas uma outra explicação pela relativamente pouco festejada presença de Obama na China, curiosamente, é a própria insegurança do regime autocrático de Pequim.
Ao contrário do presidente chinês Jiang Zemin, que discordou abertamente do presidente americano Bill Clinton sobre a questão dos direitos humanos, Hu Jintao é um político cauteloso cujo mandato tem sido marcado por uma obsessão com a estabilidade. No caso de Obama, as autoridades chinesas não permitiram a transmissão em rede nacional do debate do americano em Xangai.