Título: China resiste a Obama
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Fonte: O Globo, 18/11/2009, O Mundo, p. 28

Reuniões entre presidentes revelam mais diferenças do que acordos

OBAMA NA Cidade Proibida: presidente americano pediu a retomada das negociações com o Dalai Lama e defendeu os direitos humanos em discurso transmitido pela TV

PEQUIM

Foram mais de seis horas de encontros, dois jantares e meia hora de pronunciamento em público. E ao final da maratona, por trás das declarações protocolares sobre uma parceria estratégica, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e Hu Jintao, da China, revelaram mais divergências do que acordos entre os dois países. Fortalecida por sua posição de maior credor externo dos EUA, a China disse não à maioria das propostas americanas. Diante dos jornalistas no Palácio do Povo, em Pequim, Obama e Hu manifestaram a preocupação com a proliferação nuclear, mas não coincidiram com a aplicação de sanções ao Irã. Declararam a vontade de defender o meio ambiente, mas não ofereceram soluções claras para salvar a conferência de Copenhague. Reconheceram a necessidade de agir contra a crise econômica, mas não apresentaram receitas. Discordaram inclusive sobre a moeda chinesa, o yuan, que os EUA gostariam de ver valorizada para melhorar suas exportações. Ou seja, o encontro terminou sem acordos concretos.

Apesar da pressão americana, as divergências continuaram em direitos humanos, com uma declaração conjunta reconhecendo que os dois países têm diferenças na questão. O pronunciamento de Obama, ao vivo, foi um dos raros momentos em que suas declarações não passaram pelo filtro chinês. Nele, o presidente americano pediu a retomada das negociações com o líder espiritual dos tibetanos:

¿ Os EUA reconhecem que o Tibete faz parte da China e apoiam uma rápida retomada do diálogo entre Pequim e representantes do Dalai Lama ¿ disse Obama.

Hu, por sua vez, reafirmou a posição da China e disse que um país deveria respeitar os interesses do outro como forma de estabelecer a confiança. O presidente chinês pediu ainda que o território americano não seja usado por separatistas.

¿ A China aprova o apoio do presidente Obama ao princípio de uma só China ¿ disse ele. ¿ Esperamos que entendam as preocupações chinesas em relação a Taiwan e não apoiem que forças a favor da independência do Tibete ou do Turquestão façam qualquer movimento a partir do solo americano para se separar da China.

Notícia omite direitos humanos

Descrevendo as relações com a China como ¿mais importantes do que nunca para o futuro coletivo¿, Obama procurou contrabalançar elogios à economia chinesa com críticas. Diante de Hu, o presidente americano defendeu ¿os direitos universais¿, que ¿devem estar ao alcance de todos os povos, minorias étnicas e religiosas¿.

O pronunciamento dos presidentes ¿ incluindo as citações de Obama sobre direitos humanos e Tibete ¿ foi transmitido ao vivo. A cobertura na mídia chinesa, no entanto, preferiu se concentrar somente em parte da mensagem do presidente americano, com a agência estatal Nova China destacando ¿EUA reconhecem Tibete como parte da China¿ e ignorando o pedido pelos direitos humanos.

A agenda do encontro abordou algumas das principais questões mundiais. EUA e China concordaram com a retomada das negociações multilaterais para discutir o desmantelamento do programa nuclear da Coreia do Norte, e Obama destacou que precisa da ajuda chinesa para pressionar o Irã a abandonar seu programa nuclear. Hu, porém, não fez menção às consequências, dizendo apenas que a questão deve ser resolvida com negociações.

¿ Concordamos que o Irã deve dar garantias à comunidade internacional de que seu programa nuclear é pacífico e transparente ¿ disse Obama.

Para analistas, a gama de assuntos sobre os quais os EUA pediram a ajuda da China seria inimaginável antes da crise econômica ou das guerras em Afeganistão e Iraque e muitos citaram o G-2 e uma nova ordem mundial, onde a China vai ganhando um peso maior.

¿ Antes da crise, os EUA estavam numa posição de líder mundial ¿ observou Shi Yinhong, professor de Relações Internacionais na Universidade do Povo da China. ¿ Agora talvez os EUA dependam mais da China do que a China dos EUA.

oglobo.com.br/mundo