Título: Aquecimento populacional
Autor: Weber, Demétrio
Fonte: O Globo, 19/11/2009, Ciência, p. 38
Controle de natalidade pode ter impacto significativo no clima, aponta ONU
Enviado especial ¿ CIDADE DO MÉXICO
O crescimento da população tem impacto direto no aumento das emissões de gases do efeito estufa e, portanto, é uma das causas das mudanças climáticas. O alerta foi feito ontem pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, na antiga sigla em inglês), que lançou um relatório defendendo o maior acesso das mulheres a métodos contraceptivos, ao planejamento familiar e à educação.
Frear a expansão demográfica, mostra o relatório, teria o mesmo efeito, em termos de redução de emissões, que substituir todas as termoelétricas à base de carvão ¿ justamente as mais poluentes ¿ por estações de energia eólica. Tudo dependerá das taxas de natalidade daqui para a frente.
Daí a ênfase em frear o aumento populacional.
Com receio de ser mal interpretado, o UNFPA deixa claro, no entanto, que é contra a imposição de controle populacional de qualquer natureza. Decidir o número de filhos, enfatiza o texto, é um direito de cada mulher. Mas o documento frisa que 35% das gestações nos países em desenvolvimento não são desejadas, percentual que atinge surpreendentes 41% em nações desenvolvidas.
Ou seja, há espaço de sobra para ações de planejamento familiar.
O aquecimento global é provocado pelo acúmulo, na atmosfera, de dióxido de carbono, metano e outros gases que impedem a dissipação de calor no espaço. Esses gases são gerados em atividades como a produção de energia, de alimentos, o desflorestamento ou o transporte de pessoas e cargas. Quanto mais gente no mundo, maior o volume de gases no ar.
O relatório destaca, porém, que a chamada ¿pegada de carbono¿ de cada pessoa varia conforme seu padrão de consumo. Não é à toa que, em termos de emissões per capita, os países desenvolvidos têm um peso maior do que as nações em desenvolvimento. Em números absolutos, no entanto, a China já ultrapassou os Estados Unidos, e o mundo em desenvolvimento responde por 54% do total.
¿ O crescimento populacional em si não é o grande vilão ¿ disse a representante auxiliar do UNFPA no Brasil, Tais Santos. ¿ Se você tem uma população indígena na Amazônia que cresce a 20% ao ano e outra de mesmo tamanho crescendo a taxa menor, porém, com estilo de vida não ambientalmente sustentável.
Quem vai fazer mais diferença? Segundo o relatório, um morador dos EUA ou do Canadá emite, em média, cerca de três vezes mais CO2 por ano do que um habitante da América Latina; cinco vezes mais do que alguém no leste asiático; seis vezes mais do que um africano e oito vezes mais do que quem vive no sul da Ásia. O texto cita que os 7% mais ricos da população global respondem por 50% das emissões de CO2, enquanto os 50% mais pobres produzem apenas 7% das emissões. Cerca de 200 milhões de pessoas devem se deslocar por conta do aquecimento.
Já somos 6,8 bilhões no planeta
Olhando para trás, o documento estima que o crescimento da população já foi responsável por 40% a 60% do aumento de emissões. O autor Robert Engelman esclarece que essa projeção diz respeito ao último século. Sob o título ¿Enfrentando um mundo em transição: mulheres, população e clima¿, o relatório projeta três cenários para 2050. Com baixa taxa de natalidade, o planeta passaria a ter 7,95 bilhões de habitantes; com taxa média, 9,15 bilhões; com alta, 10,46 bilhões.
A estimativa hoje é que sejamos 6,8 bilhões.
O relatório transcreve trecho de declaração do Fórum Asiático de para População e Desenvolvimento: ¿Existem fortes vínculos e uma correlação entre crescimento populacional e emissão de gases de efeito estufa que causam mudança do clima e... comunidades com alto crescimento populacional são também mais vulneráveis aos efeitos negativos da mudança do clima, tais como escassez de água, perda de safras, elevação do nível do mar e propagação de doenças infecciosas.¿ Lançado às vésperas da Conferência de Mudanças Climáticas da ONU, o relatório mostra que a população mundial é, ao mesmo tempo, vítima e agente das mudanças climáticas. O texto cobra dos países desenvolvidos uma atitude de liderança no sentido de reduzir as emissões e ajudar as nações pobres e em desenvolvimento a adaptaremse aos novos tempos.
O UNFPA defende o acesso universal aos sistemas de saúde e educação, especialmente para as mulheres. Com mais anos de estudo e podendo fazer uso de métodos anticoncepcionais, elas deixam para ter filhos mais tarde e tendem a formar famílias menores, defende.