Título: Obama faz apelo, mas desequilíbrio entre EUA e China deve persistir
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 18/11/2009, Economia, p. 22
Americano pede valorização do yuan e chineses reclamam de juros baixos
WASHINGTON. O encontro de cúpula ontem entre os presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e da China, Hu Jintao, terminou com palavras amenas sobre esforços para combater o aquecimento global e fortalecer as finanças mundiais. Mas as divergências na área econômica continuam uma das grandes dificuldades na relação sino-americana. E o pior: tanto a fragilidade econômica atual dos EUA, quanto o crescimento desequilibrado na China, num cenário de interdependência mútua dos dois países, deixa longe um consenso sobre como acabar com essa relação desequilibrada, como prometido pelas duas potências no último encontro do G-20, em Pittsburgh. Após reunir-se com Hu, Obama fez um novo apelo para que a China permita a flutuação do yuan:
¿ Seria uma contribuição essencial para o esforço de reequilíbrio global.
Hu não falou sobre câmbio. Mas Liu Mingkang, presidente da Comissão Regulatória Bancária chinesa, reclamou dos juros baixos nos EUA ¿ hoje entre zero e 0,25% ¿, que contribuiriam para derrubar o dólar e desvalorizar as reservas que a China tem em títulos do Tesouro americano. Michael Pettis, professor de Finanças da Universidade de Pequim, ressalta, no entanto, que os juros baixos nos EUA vão ajudar a reverter a queda aguda no consumo americano, que foi catastrófica para as exportações chinesas. E pergunta:
¿ Então o que bom é para a China: uma taxa de juros americana baixa ou alta?
Em artigo no ¿New York Times¿ esta semana, o prêmio Nobel de Economia Paul Krugman afirmou que os chineses, ¿em vez de encararem a necessidade de mudar sua política (cambial), decidiram dar lições aos EUA, dizendo-nos para elevar os juros e reduzir o déficit fiscal ¿ ou seja, deixar nosso desemprego ainda pior¿. E acrescenta que é melhor Obama ¿alertar os chineses que eles estão jogando um jogo perigoso¿.
¿ As nações que emitem moedas que compõem a reserva de outros países devem se esforçar para manter o valor de suas moedas, prevenindo impactos negativos em outros países ¿ disse o ministro das Finanças da China, Xie Xuren, usando as mesmas palavras que autoridades chinesas têm repetido nos últimos dias.
Europeus vão à China semana que vem para fazer pressão
O FMI também criticou o câmbio engessado da China. Na segunda-feira, o diretor-gerente do Fundo, Dominique Strauss-Kahn, disse que o governo chinês ¿esmagou sua moeda em relação ao dólar¿ para ajudar seus exportadores a enfrentarem a crise global. E semana que vem será a vez de o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, o comissário de Economia da União Europeia (UE), Joaquin Almunia, e Jean-Claude Juncker, que lidera o grupo de ministros de Finanças da zona do euro, fazerem pressão. Eles se reúnem com representantes chineses nos dias 28 e 29, em Nanquim.
Nos últimos anos, diz Fred Bergsten, presidente do Peterson Institute for International Economics, a China vem comprando entre US$15 bilhões e US$20 bilhões em títulos do Tesouro dos EUA por mês para enxugar de sua economia a enxurrada de dólares em investimentos estrangeiros e exportações e, assim, manter o yuan artificialmente desvalorizado. Dessa forma, a China pode crescer constantemente sem maiores pressões sobre a moeda ou a inflação. Com isso, suas reservas internacionais somam hoje US$2,2 trilhões, dos quais US$1,3 trilhão em ativos em dólar.
Enquanto os EUA vinham crescendo, diz Roya Wolverson, do Council on Foreing Relations, isso não era problema, pois a invasão de produtos baratos da China ajudava a segurar a inflação americana. Mas, após a crise, a situação se deteriorou. Os EUA têm hoje o maior déficit orçamentário de sua História ¿ US$1,4 trilhão no último ano fiscal ¿, desemprego acima de 10% e um endividamento gigante, com a China como principal credor.
Nas discussões com Hu Jintao, contam os diplomatas, Obama prometeu estimular a poupança doméstica nos EUA e cuidar do déficit fiscal se a China ajudar elevando seu consumo interno e deixando o yuan flutuar. Mas isso é impossível, explica Hossein Askari, professor de Economia Internacional da Universidade George Washington:
¿ Os americanos foram doutrinados a consumir, o que explica uma taxa de poupança hoje de apenas 4% do PIB. Nem o governo quer mudar isso agora, porque se os americanos começarem a poupar em vez de gastar, a recuperação econômica será ainda mais lenta. A China, por sua vez, não tem como deixar de poupar porque o país carece de uma Previdência Social e de um sistema de saúde eficientes, o que resulta numa taxa de poupança de 30%. São diferenças culturais.
Países costuram acordo para ajuda ao setor bancário
Na área comercial, explica Askari, a situação é ainda mais crítica, porque o pacote de estímulo chinês está ajudando a construir um superestoque de produtos para exportação, o que pode levar a novos conflitos na área comercial. Hu Jintao afirmou ontem que os dois países ¿precisam combater e rejeitar o protecionismo em todas as suas formas¿. Em setembro, os EUA criaram uma tarifa de 35% sobre pneus importados da China e, em outubro, sobretaxaram o aço chinês em 99%.
Autoridades reguladoras de China e EUA estão negociando um pacto para encorajar as instituições financeiras chinesas a comprarem pequenos e médios bancos americanos, afirmaram ontem à agência de notícias Reuters banqueiros próximos às discussões. O processo de aprovação para acordos financeiros pelas autoridades dos EUA sempre foi muito rígido, mas, com a crise, os bancos chineses estão cheios de recursos para investir, enquanto os americanos enfrentam dificuldades. Dois banqueiros chineses disseram ter sido procurados por representantes do governo americano para analisar investimentos em bancos nos EUA.
(*) Com agências internacionais
CHINA RESISTE A OBAMA, na página 28