Título: Em Ipanema, um protesto para lá de ecumênico
Autor: Malkes, Renata
Fonte: O Globo, 23/11/2009, O Mundo, p. 17

Antes de embarcar para o Brasil, Ahmadinejad lança cinco dias de manobras militares

O Exército iraniano iniciou ontem uma série de manobras militares para testar a capacidade de defender suas usinas nucleares de ataques aéreos.

Diante das especulações de uma eventual ação militar israelense para destruir seu programa nuclear, o governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad, que chega hoje a Brasília para visita oficial, anunciou cinco dias de operações em uma área total de 600 mil quilômetros quadrados, aumentando a tensão na região.

¿ Se o inimigo quiser tentar a má sorte no Irã, antes de a poeira de seus mísseis se levantar sobre o país, nossos mísseis balísticos estarão aterrissando no coração de Tel Aviv ¿ ameaçou o clérigo Mojtaba Zolnour, representante do aiatolá Ali Khamenei no comando das Guardas Revolucionárias.

De acordo com a agência estatal iraniana Irna, os exercícios militares iniciados ontem ganharam o nome de ¿Operação Defensores dos Céus 2¿. A manobra terá três fases e visa melhorar a comunicação entre a Força Aérea, a Guarda Revolucionária e as milícias Basij, além de preparar batalhões de artilharia, reconhecimento de aeronaves invasoras e lançamento de mísseis. Em mais uma ameaça a Israel, o comandante da Força Aérea iraniana, Amir Ali Hajizadeh, garantiu que os caças F-15 e F-16 israelenses serão aniquilados se violarem o espaço aéreo do país: ¿ Serão abatidos por nossa defesa antiaérea. Se tentarem escapar, todas as bases de onde decolaram serão atingidas por mísseis terra-terra antes mesmo que consigam pousar.

Desconfiança sobre encontro com Lula

início dos exercícios foi anunciado em meio a uma forte pressão de Israel para que o Irã abra mão de seu programa nuclear. Neste contexto, a visita de Ahmadinejad ao Brasil é vista com desconfiança em Israel. Apesar de garantir que o Brasil não tem interesse em vender urânio ao Irã, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem mandando sinais que parecem contraditórios aos israelenses.

Poucos dias depois de reunir-se com Shimon Peres numa visita marcada pela cordialidade, Lula criticou severamente a política de assentamentos israelenses num encontro com o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e hoje recebe o polêmico presidente iraniano, considerado racista e antissemita.

Fontes ligadas ao gabinete do primeiroministro, Benjamin Netanyahu, já expressam descontentamento diante da aproximação entre Brasília e Teerã e a imprensa israelense vem acompanhando com atenção as ações diplomáticas do governo brasileiro.

¿ Temos relações amigáveis, mas não sabemos se é possível confiar no Brasil como aliado ou futuro interlocutor no Oriente Médio. Há boa vontade, mas falta firmeza. Não interferimos na política externa brasileira, mas é estranho que um país conhecido pela tolerância receba de braços abertos um homem que representa a antítese do respeito ao ser humano ¿ disse uma fonte da chancelaria de Israel.

Para o analista iraniano Meir Javendafar, se a recepção calorosa a Ahmadinejad é parte dos esforços do governo brasileiro para firmar-se no cenário internacional como uma nação aberta ao diálogo incondicional, a ação pode ter efeito contrário. Javendafar acredita que, apesar do interesse comercial do Brasil em explorar o mercado consumidor potencial da jovem sociedade iraniana, a aliança com Teerã pode acabar arranhando a imagem do país junto à Europa e aos EUA: ¿ O desafio de Lula será estabelecer uma amizade com ressalvas.

Seria ótimo que condenasse a violação dos direitos humanos. Há um consenso mundial sobre a política de repressão e violência imposta pelo regime dos aiatolás, e Ahmadinejad ganhou legitimidade à custa do sangue de estudantes. Caso o Brasil se cale diante disto, poderá colocar em risco sua reputação.