Título: Pragmatismo
Autor:
Fonte: O Globo, 17/11/2009, Opinião, p. 6
Não deixa de ser uma decepção que os presidentes dos EUA, Barack Obama, da China, Hu Jintao, e outros líderes da Ásia e do Pacífico, reunidos em Cingapura, tenham decidido adiar a elaboração de um novo acordo global para fazer frente ao aquecimento e às mudanças climáticas, que deveria acontecer na conferência da ONU de 7 a 18 de dezembro, em Copenhague. Mas a verdade é que agiram com pragmatismo.
Diante das enormes divergências sobre os compromissos aceitáveis para cada grupo de países, a conferência caminhava para um retumbante fracasso.
Para dar uma ideia das dificuldades, os EUA chegariam a Copenhague sem meta definida de corte de emissões, uma vez que o Congresso americano ainda não se pôs de acordo sobre a legislação climática proposta por Obama. Sem os EUA, que respondem por quase um quarto das emissões mundiais, não há acordo. A China, segundo maior poluidor, iniciou um grande esforço diante de suas próprias catástrofes ambientais, mas rejeita metas específicas. No mesmo caso está a Índia. Diante da relutância dos pesos pesados, países menores também evitam comprometer-se.
Infelizmente, não seria nos 20 dias que faltam para a conferência de Copenhague que tais problemas seriam superados. Assim, os líderes reunidos na Apec (Cooperação Econômica Ásia-Pacífico) decidiram que o que se buscará na capital dinamarquesa será uma declaração ¿politicamente vinculante¿, pouco específica e não obrigatória, deixando as questões práticas e técnicas para mais tarde, possivelmente para a conferência do clima da Cidade do México, dentro de um ano.
É melancólico, levando-se em conta que, diante dos gravíssimos problemas ambientais que o planeta já enfrenta, tudo isso mereceria um outro sentido de urgência.
O que, então, esperar de Copenhague? Que, pelo menos, haja consenso político em relação a uma boa parte dos obstáculos que se opõem a um novo acordo global.
O Brasil deu um passo importante ao assumir o compromisso de reduzir de 36,1% a 38,9% as emissões projetadas para 2020. Mas também é importante que o governo possa detalhar a metodologia usada pelos técnicos para chegar a esses números.
É vital que se dê transparência à meta, se queremos obter a indispensável adesão dos agentes econômicos e da sociedade.
Mas o fato de o país ter anunciado uma meta expressiva para 2020, antes de os líderes da Apec jogarem a toalha em relação à reunião de Copenhague, nos credencia como ator de destaque nesse esforço global. Somos o quarto maior poluidor, em grande parte pela queima das florestas. Estima-se que as queimadas, a maioria na Amazônia, lancem 8 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera por ano, o que representa cerca de 16% das emissões totais.
Fica claro que, ao comprometerse com a redução de 80% do desmatamento da Amazônia (o que responderia pela queda de 20,9% das emissões de CO2 do país), e com medidas para o cerrado, agropecuária, geração de energia e siderurgia, o Brasil está prometendo fazer jus ao seu rico patrimônio ambiental e às suas ambições de global player.