Título: Governo prepara pacote para mercado de câmbio e investimento no exterior
Autor: Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 21/11/2009, Economia, p. 24

Medidas serão anunciadas em conjunto para evitar especulações

BRASÍLIA, CINGAPURA e NOVA YORK. O governo pretende divulgar as medidas estruturais que estão sendo preparadas para o mercado cambial de uma vez só, e não mais a conta-gotas.

A ideia é anunciar um pacote de ações para modernizar e flexibilizar ainda mais o câmbio no país para evitar expectativas e especulações, disse ao GLOBO um importante integrante da equipe econômica. A ampliação das aplicações financeiras do Brasil no exterior ocupa boa parte da atenção do governo, sobretudo no Banco Central (BC).

Entre as medidas está a criação de uma conta-investimento.

Esse instrumento permitiria que empresas e pessoas físicas possam fazer aplicações no exterior, como comprar títulos de outras nações. O BC e o Ministério da Fazenda também estudam outras opções para aperfeiçoar o mercado cambial do país. Entre elas, ampliar de 30% para 100% o teto que os fundos de investimentos têm para investir em ativos no exterior, a liberação da abertura de contas correntes em moeda estrangeira dentro do país e uma reforma do sistema operacional do mercado de câmbio, para reduzir tempo e custo das transações.

As ações visam a desestimular mais ingressos de dólares no país e diminuir a pressão sobre o câmbio. Hoje, com a moeda americana na casa de R$ 1,70, os exportadores reclamam que estão perdendo competitividade no exterior, porque seus produtos ficam mais caros. Além disso, há uma preocupação com as contas externas, que podem passar a gerar déficits elevados.

Países asiáticos estudam limitar entrada de capital A conta-investimento que está sendo desenhada seria como um fundo de investimento, mediante o qual o investidor compra cotas e, assim, pode adquirir papéis lá fora. Com essa conta, o titular pode depositar reais que serão transformados em dólares para serem usados na aplicação de títulos estrangeiros. O governo, assim, estimularia o envio de recursos para fora, atenuando pressões sobre o câmbio internamente.

Hoje, é possível comprar papéis estrangeiros, mas a burocracia e os custos são proibitivos.

A conta-investimento seria um mecanismo mais simples, mas, para isso, será necessária a criação de instrumentos legais.

As medidas do governo, porém, podem demorar um tempo para fazer efeito no câmbio, uma vez que os ativos brasileiros continuam gerando bons ganhos. A taxa básica de juros do país, em 8,75% ao ano, é uma das mais elevadas do mundo, atraindo investidores de fora para títulos brasileiros. Ou seja, o fluxo de dólares para o país deve continuar positivo. No ano, até o último dia 13, as entradas superavam as saídas em US$ 23,576 bilhões, o dobro do volume registrado um ano antes, de US$ 11,798 bilhões.

O presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Marcelo Giufrida, crê que as medidas sobre fundos poderão ter efeito a médio prazo. Ele lembra que o Brasil continua tendo os ativos com mais rentabilidade, pelos juros altos e pelas expectativas de crescimento econômico.

Segundo ele, poucos fundos hoje utilizam a prerrogativa de aplicar em papéis no exterior, mas acha que, com a consolidação dos mercados, pode haver a criação de novos produtos com essas características. Hoje, segundo ele, alguns fundos já podem alocar 100% de seu patrimônio em papéis estrangeiros.

Mas são fundos para grandes aplicadores, com pelo menos R$ 1 milhão cada um.

Já em Índia, Coreia do Sul e Indonésia, autoridades estudam impor limites à entrada de capital de curtíssimo prazo, que pode causar bolhas e valorizar suas moedas. O BC indonésio analisa limitar os papéis de curto prazo, e semana passada Taiwan proibiu estrangeiros de investir em aplicações de renda fixa.

Em Wall Street, a alta do dólar e o resultado decepcionante de algumas empresas afetaram as ações. O Dow Jones recuou 0,14%, o S&P caiu 0,32%, e o Nasdaq, 0,5%. O preço do petróleo em Nova York caiu 1%, para US$ 76,72.

Em Londres, a queda foi de 0,6%, para US$ 77,20.

Ontem, o ¿Wall Street Journal¿ revelou que alguns dos principais acionistas do Goldman Sachs cobraram uma redução dos bônus pagos a executivos para elevar a divisão dos ganhos com os investidores da firma.