Título: Renan volta a dar as cartas no Congresso
Autor: Azedo, Luiz Carlos
Fonte: Correio Braziliense, 28/05/2009, Política, p. 4
Próximos passos na CPI da Petrobras dependem de acordos do governo e da oposição com o político peemedebista, que restabelece poder depois de escapar de processos de cassação de mandato
Renan: negociações no Congresso passam pelo político alagoano Renan Calheiros mais uma vez dá as cartas no Senado, gostem ou não os desafetos. Depois de escapar pelo voto secreto de dois processos de cassação de mandato ¿ um antes e outro depois de renunciar à presidência do Senado ¿, amargou um ano de ostracismo político e voltou a ser o parlamentar mais importante da República. O futuro da CPI da Petrobras, que será instalada na próxima terça-feira, depende dos acordos do governo e da oposição com Renan. De igual maneira, todas as votações importantes para o governo na Casa também passarão por negociações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o líder do PMDB, sem intermediários. Foi esse o recado que mandou durante negociações para a formação da CPI.
Não foi por acaso que Renan indicou os nomes do PMDB que comporão a comissão 15 minutos antes do prazo se esgotar, na terça-feira. Esperou pacientemente que o líder do PT, Aloizio Mercadante (SP), fizesse primeiro as suas indicações. O peemedebista havia vetado a autoindicação de Mercadante e pretendia fazer uma retaliação caso o líder do PT resolvesse entrar na comissão. Provavelmente, fechar o acordo com a oposição, entregando a presidência da CPI para o senador ACM Junior (DEM-BA), como estava negociando até ser chamado ao Planalto pelo presidente Lula. De igual maneira, esperou a indicação da líder do governo no Congresso, Ideli Salvatti (PT-SC), na cota de representantes do PT, para só então indicar o senador Romero Jucá (PMDB-AP) pela bancada do PMDB. Ideli é o nome para presidir a CPI, mas não será surpresa se surgir outro senador com apoio da maioria dos parlamentares governistas. Os oposicionistas estão fora de cogitação, mas ainda podem influir na eleição.
O episódio serve de exemplo para uma das habilidades de Renan que vem lhe salvando a pele desde quando era líder do ex-presidente Collor de Mello e aderiu à campanha do impeachment: jogar com o tempo e a paciência dos adversários. Jucá foi anunciado por Mercadante como o futuro relator da CPI, pois seria o nome de preferência do presidente Lula. Renan não gostou de ser atropelado, vetou a presença de Mercadante na comissão e somente não deixou Jucá de fora de sua lista de indicações porque seria uma afronta ao governo.
A relatoria é outra história. O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), pediu a Renan que indicasse o senador Paulo Duque (PMDB-RJ), veterano político fluminense, que foi o relator da CPI da Matança dos Mendigos, na década de 1960, no governo de Carlos Lacerda, na antiga Guanabara. Mantém invejável forma física aos 85 anos. O líder do PMDB usa o pedido de Cabral para manter o suspense sobre a relatoria até o dia da instalação da comissão. Novamente joga com o tempo e deixa Jucá à beira de um ataque de nervos. Roraima não tem plataforma de petróleo, mas o que não falta são terras para furar um poço.
Vácuo Renan ocupou o vácuo político criado em torno do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), por causa da onda de denúncias contra a administração da Casa e da falta de paciência do ex-presidente da República para administrar novos conflitos. Como administrou cinco comissões parlamentares de inquérito quando foi presidente do Senado, sabe como a banda toca e tem compromisso com a reeleição dos senadores do PMDB e, em alguns casos, de suas candidaturas a governador de estado. Vem daí, principalmente, a tensão com a bancada do PT, que controla a diretoria da Petrobras e teme um novo escândalo capaz de abalar a imagem do partido às vésperas da sucessão de 2010.