Título: As metas de Obama
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 26/11/2009, Ciência, p. 38

Presidente diz que vai à conferência do clima e apresenta plano de corte de emissão

Opresidente americano, Barack Obama, decidiu ir a Copenhague para a Cúpula do Clima, onde vai anunciar que os EUA se comprometem a reduzir suas emissões de gases causadores do efeito estufa em 17% em 2020, em comparação com os níveis de 2005. Os cortes, segundo Carol Browner, assessora da Casa Branca para energia e clima, serão progressivos e sempre tomando como referência as emissões de 2005. Eles chegam a 30% em 2025, 42% em 2030 e 83% em 2050, sendo este último percentual o compromisso tomado pelos países do G-20.

A decisão de Obama respalda o projeto aprovado pela Câmara dos Representantes em junho, que já havia fixado em 17% o nível de redução de emissões do país para 2020. Projeto semelhante está em tramitação no Senado mas só deve ser votado, segundo políticos democratas, no início de 2010. A falta de decisão no Senado vinha deixando os ambientalistas americanos aflitos com a possibilidade de que Obama fosse para Copenhague sem uma meta de cortes para o segundo maior poluidor do planeta, atrás apenas da China.

Americanos devem reforçar cobranças

"A meta que vamos buscar atingir está em linha com as legislações no Congresso e demonstra uma contribuição significativa para um problema que os EUA têm negligenciado por muito tempo", disse a Casa Branca em um comunicado. Os assessores de Obama buscaram destacar também a presença do presidente no encontro, a primeira vez que um líder americano comparecerá a uma cúpula ambiental desde que George H.W. Bush foi ao encontro sobre o clima no Rio de Janeiro em 1992.

O anúncio americano abre espaço para a cobrança de metas de outros países.

- Obviamente, esperamos que outras grandes economias anunciem metas ambiciosas. Achamos que este é um componente necessário de qualquer acordo. Os EUA estão dando um sério passo. Precisamos completar a agenda política no Congresso, mas trabalhamos com empenho para isso - disse Browner.

Os democratas exultaram a decisão de Obama, criticada ferozmente pelos republicanos, que se opõem à fixação de cortes de emissão porque poderia prejudicar a economia americana. Mas o presidente do Comitê de Relações Internacionais do Senado, o democrata John Kerry, batizou a decisão de "gigante mudança no jogo global, com grandes reverberações dentro e fora dos EUA".

- Pela primeira vez, uma administração dos EUA propôs uma meta de redução de emissões e, quando o presidente chegar a Copenhague, esta decisão vai enfatizar que os EUA estão neste jogo para vencer - disse o senador.

As metas foram recebidas com ressalvas. Alguns as consideraram melhores que as anunciadas pela União Europeia. Os europeus anunciaram um corte de 20% nas suas emissões em 2020 e 80% em 2050, mas a região toma como base o ano de 1990, quando emitiam menos. Jim Giles, em artigo na NewScience.com, diz que há uma diferença significativa.

- As emissões americanas cresceram 15% entre 1990 e 2005. Se usasse 1990 como base, o corte seria de aproximadamente 4% - disse Giles.

Economista-chefe da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol considerou a decisão positiva, mas afirmou que os EUA precisam fazer muito mais do que isso para compensar o fato de que são historicamente os maiores poluidores do planeta.

Mas James Hansen, da Nasa, um dos maiores especialistas do mundo em aquecimento global, criticou ferozmente a proposta de Obama. Em entrevista à "Nature", ele diz se preocupar com o fato do presidente estar otimista com o rumo dos acontecimentos. Para Hansen, não adianta o governo estabelecer metas de corte e criar o mercado de compra e venda de carbono, que, segundo ele, acabará servindo para as empresas poluírem mais e "limparem suas consciências".