Título: Ex-fumantes já superam fumantes no Brasil
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 28/11/2009, O País, p. 13
Pesquisa do IBGE mostra que o número dependentes de cigarro caiu pela metade nos últimos 15 anos no país
Ao revelar, ontem, que o índice de fumantes no Brasil teve uma queda surpreendente nos últimos 15 anos - ele caiu pela metade -, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentou também um estudo inédito: um perfil detalhado daqueles que ainda não conseguiram largar o vício.
A equipe que percorreu o país de cima a baixo em setembro de 2008, para produzir a Pesquisa Especial de Tabagismo (Petab), registrou um segundo detalhe igualmente extraordinário: o número de ex-fumantes (26 milhões de pessoas) passou a ser maior do que o de fumantes (24,6 milhões). Dessa forma, os que deixaram o cigarro são o equivalente a 18,2% da população com mais de 15 anos de idade; e os que continuam fumando representam 17,2%.
Ao receber as informações, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, exaltou o êxito da intensa campanha antitabagista desenvolvida ao longo de uma década e meia. Afinal, 65% dos fumantes disseram que as advertências nos maços de cigarros fizeram com que eles pensassem em parar de fumar. No entanto, logo em seguida, ele disse que os brasileiros não devem esperar quedas tão significativas daqui por diante:
- Quando se consegue atingir um percentual tão importante como esse, torna-se cada vez mais difícil reduzir mais. Acho que esse é um processo de construção de uma consciência da sociedade, que exige um esforço gigantesco.
A avaliação de Temporão é a de que além de continuar agindo de forma preventiva - para evitar que os jovens adquiram o vício - será preciso adotar uma nova estratégia para lidar com o contingente que sobrou: o de fumantes inveterados, que necessitam mais do que de propaganda para serem convencidos a se livrar do vício
Ministro diz que fumante é um dependente químico
Mais da metade deles (52,1%) disse ao IBGE que tem pensado em parar de fumar, mas não consegue:
- Acontece que fumar não é um hábito. Os fumantes são dependentes químicos de uma droga chamada nicotina. Temos de oferecer opções de tratamento a eles - disse Temporão, acrescentando que as secretarias municipais de saúde e também o Sistema Único de Saúde (SUS) serão convocados a oferecer medicações que ajudem os fumantes a deixarem o vício.
- Quase a metade consegue parar de fumar apenas com abordagens psicoterápicas, ou com grupos de discussão. A outra metade não: além disso ela precisa de medicação - disse o ministro.
O retrato produzido pelo IBGE abrange inclusive aspectos socioeconômicos. A grande maioria da população maior de 15 anos (64,7%) jamais fumou. Nesse quesito há mais mulheres (71,7%) do que homens (57%). Mas em termos de fumantes, o índice de homens (21,6%) é maior do que o de mulheres (13,1%).
Levando-se em conta os traços gerais do retrato traçado pelo IBGE, com base nos índices mais elevados de cada um dos indicadores coletados (em relação à população com mais de 15 anos), o fumante brasileiro é descrito como: homem entre 45 e 64 anos (19% dos negros e pardos e 15,3% dos brancos); começou a fumar entre 17 e 19 anos; reside no Sul do país; vive na área rural; não tem instrução ou estudou apenas um ano; e tem uma renda domiciliar baixa - 1/4 do salário mínimo.
Fumo causa câncer em 100 mil brasileiros a cada ano
Quanto maior o rendimento domiciliar per capita, menor a proporção de fumantes. Essa mesma relação se dá quando se leva em conta a escolaridade: quanto mais alta, menor o índice de fumantes. Dos 24,6 milhões de viciados, 33,9% fumam de 15 a 24 cigarros por dia. E nada menos do que 60,3% deles acendem o primeiro cigarro do dia em no máximo 30 minutos depois de acordar. Dois de cada dez começam a fumar apenas cinco minutos depois de despertar.
- No ano que vem o câncer vai atingir 500 mil brasileiros: 100 mil deles vítimas do fumo - disse Luiz Antonio Santini Rodrigues, presidente do Instituto Nacional do Câncer.
Outro aspecto ressaltado na pesquisa é o de que os fumantes gastaram em média, no ano passado, US$78,43 por mês na compra de cigarros. O gasto foi ainda mais elevado no Sul: R$98,99.
- Esse dado é impressionante, pois mostra que o fumante brasileiro gasta, em média, mais com tabaco do que com a compra de frutas - disse Eduardo Pereira Nunes, presidente do IBGE