Título: Governador soube das gravações
Autor: Carvalho, Jailton de; Éboli, Evandro
Fonte: O Globo, 29/11/2009, O País, p. 4
BRASÍLIA. Durval Barbosa Rodrigues, o homem que denunciou um megaesquema de corrupção no Distrito Federal, é um delegado da Polícia Civil que disse monitorar o pagamento de propina a políticos desde o início da gestão de José Roberto Arruda (DEM). Ele era secretário de Relações Institucionais de Arruda até sexta-feira, mas tinha ligações com o ex-governador Joaquim Roriz (PSC).
Quando depôs pela primeira vez para dois procuradores, em setembro deste ano, Durval entregou 31 fitas de CDs e DVDs com diálogos que demonstravam o esquema de corrupção. A partir daí, a PF entrou no caso e orientou Durval, que passou a ter todos os diálogos com políticos monitorados pela PF.
As primeiras gravações de Durval teriam ocorrido ainda em 2006, quando registrou pagamento de propina para os deputados distritais Eurides Brito e Leonardo Prudente. Em depoimento, ele afirma que esse esquema de pagamento a parlamentares do Distrito Federal acontecia desde 2002, no governo de Joaquim Roriz.
O inquérito da PF demonstra que, prestes a estourar o escândalo, o primeiro escalão do governo local tinha conhecimento das denúncias. Segundo narrou Durval à PF, o próprio governador Arruda já saberia de gravações que o secretário fazia das negociações dos pagamentos.
Em depoimento, Durval contou que, no fim do ano passado, Arruda teria declarado: ¿ Se um dia você resolver apresentar essas imagens da minha pessoa, você me avise com cinco dias de antecedência que é para eu sumir, ou dar um tiro na minha cabeça ou te matar.
Durval contou em seu depoimento ao Núcleo de Combate às Organizações Criminosas do Ministério Público que decidiu gravar diálogos e imagens de políticos porque se sentia ameaçado por Arruda e seu grupo político, que faziam uma campanha difamatória contra ele. Durval afirmou que sua vida pessoal virou um transtorno e que seu casamento terminou por conta de desavenças geradas por essas disputas no governo.
Depois que denunciou o esquema, Durval passou a utilizar aparelhos da PF para gravar diálogos e imagens. E depois usou aparelhagem própria.
No início de novembro, Durval sentiu que o cerco estava fechando e que autoridades do governo local já tinham informação de que o inquérito com as denúncias tramitava no STJ.
No dia 12 de novembro, Durval, após conversa com José Geraldo Maciel, da Casa Civil, enviou uma mensagem de celular para policiais federais, demonstrando pavor. ¿Situação ficando insustentável¿. No mesmo dia, ele enviou outro torpedo: ¿Começo a temer pelo desconhecido¿.
(Evandro Éboli e Jailton de Carvalho)