Título: É duro mais do que 4%, 5%!
Autor: Lima, Maria
Fonte: O Globo, 01/12/2009, O País, p. 3
Num dos mais longos vídeos gravados pelo então secretário de Relações Institucionais do governo do Distrito Federal, Durval Barbosa, o empresário Gilberto Lucena, dono da empresa de informática Linknet, reclama das propinas cobradas pelo governo. Na conversa, ele e Durval dizem que entre os beneficiados dos pagamentos estariam o vice-governador Paulo Octávio e o secretário de Planejamento, Ricardo Pena.
A Linknet, uma das empresas acusadas de operar o esquema, tem contrato de R$ 223 milhões para serviço de processamento de dados do GDF. Na conversa, Lucena, irritado, reclama do apetite com que Paulo Octávio e o governador José Roberto Arruda estariam se lançando sobre os ganhos de sua empresa.
¿ É duro mais do que 4%, 5%! Me ajuda nisso aí! ¿ reclama Gilberto Lucena, pedindo que Durval intervenha na negociação para reduzir a propina cobrada de sua empresa.
¿ Não posso fazer nada. O Arruda quem mandou ¿ responde Durval, deixando claro que o governador é o chefe do esquema. (A íntegra do diálogo está no quadro ao lado).
Como no mensalão petista, apareceu também um personagem que guarda dinheiro na cueca. Desta vez foi o empresário Alci Colaço, dono do jornal ¿Tribuna do Brasil¿, de Brasília.
Ele entra no gabinete de Durval, recebe os maços de dinheiro e começa a enfiá-los no cós da apertada calça jeans, pela frente e por trás, conforme mostra outro vídeo divulgado ontem
Investigações desde o governo Roriz
Com contratos em vários estados, a Linknet vem sendo investigada por corrupção desde o governo Joaquim Roriz. É um dos alvos da Operação Aquarela, da PF, que investiga outras denúncias de pagamento de propinas durante a campanha de Roriz.
Mesmo com a investigação em curso, a Linknet ganhou a licitação ¿ que teve vários pontos contestados pelo Tribunal de Contas do DF ¿ para prestar serviços por 36 meses. Pela planilha detalhada por Lucena na conversa gravada por Durval, a propina paga ao esquema era de 1% do contrato.
Além de Paulo Octávio, Lucena diz que pagava 1% para o corregedorgeral do GDF, Roberto Giffoni.
¿ O Paulo Octávio está cobrando! (...) Tá dizendo: ¿Ah! Não vai pagar primeiro para mim, não?¿ ¿ diz Durval Barbosa.
O dono da Linknet diz que uma parte já foi paga, pois teve de adiantar dinheiro para o secretário de Planejamento, Ricardo Pena.
¿ Deu R$ 300 mil pro Ricardo? Não, foi R$ 200 e poucos... ¿ diz Durval Barbosa.
Lucena explica que, nesses pagamentos, estava descontando o imposto e reclama muito de atraso nos repasses e das despesas que está tendo com pagamento de juros nos bancos.
Em toda a conversa, o autor dos grampos insiste para que o empresário repita os pagamentos já feitos. Em outro trecho, Durval ironiza e lembra que Arruda é amigo de Lucena: ¿ É o Arruda... teu amigo!.
¿ Ele não é amigo meu não! É amigo do capeta! Do capeta! Não tenho amizade com esse tipo de gente...
¿ responde, rispidamente.
Quando Lucena diz que vai descontar dos pagamentos um adiantamento feito ao secretário Ricardo Pena, Durval diz que ficará difícil.
¿ Então avisa isso lá, porque o Pena só assina se pagar para ele adiantado! Foi assim da vez passada e foi desse jeito agora! Eu vou descontar, mas é lógico que eu vou descontar! ¿ diz Lucena, exaltado.
¿ E eu vou descontar isso de quem? Vou descontar do Paulo Octávio ... ¿ disse Durval.
Durval pede então que o empresário faça prestação de contas.
¿ Vou fazer! Posso fazer! Olha, o Paulo Octávio tem quantos por cento disso aqui? ¿ pergunta Lucena.
¿ Tem 30% ¿ confirma Durval.