Título: Na Bolívia, riqueza do gás não chega a todos
Autor: Valle, Sabrina
Fonte: O Globo, 04/12/2009, O Mundo, p. 42
Economia do país vem crescendo, mas população ainda enfrenta dificuldades como pobreza e desemprego altos
Enviada especial
LA PAZ. Em sua modesta casa nos arredores de La Paz, o recepcionista Hernán Nacho está sempre atento ao apito do caminhão de gás. O veículo não tem hora para passar e quando as pessoas ouvem que ele se aproxima, saem correndo para pegar o botijão.
¿ Neste ano está bom, mas no ano passado faltou muito gás, e volta e meia a gente ficava sem. Às vezes sai até briga, tem que ser rápido ¿ conta Nacho.
Seu caso não é exceção: na Bolívia ¿ país que tem o gás natural como sua principal fonte de renda ¿ não há gás encanado para mais de 90% das famílias. Até mesmo no palácio presidencial as refeições servidas ao presidente Evo Morales também são preparadas com ajuda de botijões, vendidos nos caminhões na Praça Murillo por 22,50 bolivianos, cerca de R$ 8.
¿ Quando Evo foi eleito, ele prometeu que teria gás encanado em um ano no meu bairro, mas até agora, nada ¿ reclama Nacho.
Índices macroeconômicos da Bolívia são animadores
Eleitores como Nacho vão às urnas neste domingo para as eleições em que, segundo pesquisas, Evo Morales será reeleito em primeiro turno. Embora minoria, alguns deles assinam embaixo as acusações da oposição de que Morales não cumpriu sua promessa de distribuir melhor os recursos naturais do país às populações pobres e indígenas. Indicadores sociais como acesso a serviços básicos e nível de emprego se contrapõem no país a índices econômicos positivos.
¿ Dados macroeconômicos melhoram neste governo. Há muitos anos não temos um nível de crescimento do PIB tão bom. Mas a transferência para a população foi limitada ¿ diz o economista Carlos Azer, do instituto independente de pesquisas socioeconômicas Cedla.
No mês passado, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu um crescimento de 3,2% para a Bolívia em 2009, contra uma queda média de 2,5% para a América Latina.
Para 2010, a previsão é ainda melhor: 3,4%, resultados possíveis graças à alta do preço de matérias-primas que o país exporta, como o gás.
E Morales, aliado do venezuelano Hugo Chávez e do cubano Fidel Castro, também recebe elogios do FMI por sua responsabilidade fiscal. Apesar de aumentar em 33,5% os investimentos públicos este ano em relação a 2008 (para US$ 1,87 bilhão), o presidente tem gastado menos do que arrecada, e as reservas do país subiram para US$ 8 bilhões. Mas os avanços não foram suficientes.
¿ As políticas de ativação da economia por parte do governo foram quase incipientes ¿ explica Azer. ¿ Os índices de pobreza continuam altos, 60% dos trabalhadores ocupados não recebem o bastante nem mesmo para se alimentar. Os programas de transferência de renda ajudaram, mas são insuficientes diante da pobreza.
Anteontem, a Cedla divulgou uma piora num dos indicadores mais importantes para a população: o desemprego neste ano subiu para 11%, contra 10,2% em 2008. O governo contesta o dado do centro independente e afirma que o desemprego está em 7%.
Quanto ao gás, assessores do Palácio Quemado afirmaram ao GLOBO que as obras estão em curso pela cidade e que chegará gás encanado ali ¿ embora ainda não haja data. ¿Quando ele foi eleito presidente eu disse, ¿minha vida vai mudar, não vou mais precisar pular de casa em casa.
Peço ao meu pai que me ajude, nada além disso, peço uma casa, pois, em toda a minha vida nunca pedi nada.
Álvaro, filho de Evo Morales"