Título: O importante é viver bem a cada dia
Autor:
Fonte: O Globo, 07/12/2009, Economia, p. 22
Para os brasileiros, longevidade é chegar até os 90 anos, diz especialista
O cientista social José Carlos Libânio, ex-coordenador de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas/Brasil, foi o responsável pelo levantamento ¿Longevidade Brasil¿, da Bradesco Vida e Previdência, que ouviu duas mil pessoas no Brasil. No estudo, Libânio aponta mudanças no perfil dos idosos brasileiros.
Fabiana Ribeiro
O perfil do idoso brasileiro mudou?
JOSÉ CARLOS LIBÂNIO: A sociedade brasileira mudou, e, com ela, os idosos. Hoje, ele rejeita aquele estereótipo da pessoa encostada, gagá, inválida, que tem manias, não faz nada e depende dos outros. Essa rejeição tem fundamento: 85% deles acham que ser idoso é ser independente. Mas a sociedade não os valoriza. Um símbolo deste desrespeito é o transporte público, utilizado por 56% deles uma vez por semana ou mais. No Rio, eles são chamados de 0800, por não pagarem a passagem que ajudam a subsidiar através dos impostos que recolheram a vida toda. Muitas vezes o desrespeito vem da família: 59% acham que os parentes se esquecem deles.
É a hora de fazer o que sempre quis?
LIBÂNIO: Certamente. Em vez de ficar em casa, sem nada para fazer, chega a hora de realizar, se divertir mais. Colocar o pé no mundo, viajar, é o que os idosos brasileiros mais gostam ou gostariam de fazer. E hoje eles valorizam a atividade física, mas o sedentarismo ainda é elevado. Seus principais temores em relação à saúde são invalidez (45%), doenças (41%) e dependência financeira (31%). Apenas 12% admitem temer a morte.
Qual a importância do trabalho nessa fase da vida?
LIBÂNIO: Na média, o brasileiro se aposenta aos 57. Mas muitos ainda trabalham, sobretudo os mais jovens. Além da questão financeira, muitos retornam ao trabalho para manter o padrão de vida e para preencher o vazio social advindo da falta de uma atividade sistematizada.
Como o senhor avalia a qualidade de vida dos idosos?
LIBÂNIO: Ainda há muito o que fazer. Mas, sem dúvida, melhorou. No EUA, as cidades já estão adaptadas ao idoso, com calçadas e ônibus adequados. Há, por aqui, um longo caminho a percorrer. Mas a qualidade de vida vai além de adaptações na cidade. Para eles, longevidade significa viver até os 90 anos, e retardar o envelhecimento ao máximo. E nos dão uma lição: o importante é viver bem a cada dia, enquanto o corpo começa a apresentar sinais de envelhecimento.