Título: Melhoram relações entre Brasil e Bolívia
Autor: Valle, Sabrina
Fonte: O Globo, 07/12/2009, O Mundo, p. 28

Evo Morales declara em discurso que Lula "é o melhor presidente da América Latina"

LA PAZ. Depois de uma fase azedada pela decisão do presidente Evo Morales de nacionalizar postos e refinarias da Petrobrás na Bolívia, em 2006, as relações Brasília-La Paz se recuperaram e hoje, segundo o embaixador do Brasil no país, Frederico Cezar de Araújo, estão num de seus melhores momentos.

Da parte da Bolívia, a boa fase se revela pelas demonstrações calorosas de amizade por parte do presidente Morales - ao encerrar seu comício eleitoral no departamento de Pando, usou o microfone para declarar Luiz Inácio Lula da Silva "o melhor presidente da América Latina". Da parte do Brasil, as boas intenções se revelam com a forte disposição para aumentar em centenas de milhões de dólares os investimentos no país, hoje principalmente em infra-estrutura, na área têxtil e na exploração de lítio - além do gás, responsável por cerca de 95% das exportações bolivianas para o Brasil.

- Temos grandes perspectivas de investimento - diz Araújo, lembrando a importância da estabilidade político-econômica da Bolívia.

Enquanto internamente analistas ressaltam o temor de estrangeiros em investir na Bolívia depois da onda de nacionalizações, o Brasil diz ter construído uma relação de confiança mútua com o país. Além do contrato para compra de gás firmado pela Petrobras até 2019, grandes construtoras brasileiras como Andrade Gutierrez e Odebrecht realizaram recentemente investimentos de centenas de milhões de dólares na área de infra-estrutura. E o governo brasileiro aparece por trás de todos eles, com um contrato triangular em que o Brasil financia às construtoras, em geral via BNDES, e depois recebe pagamento do governo boliviano. Em agosto, em sua segunda visita à Bolívia este ano, Lula assinou a concessão de um financiamento de US$332 milhões do BNDES para a construção pela OAS de uma estrada que ligará Villa Tunari a San Ignacio de Moxos.

Na Petrobrás, os investimentos entre 2009 e 2013 estão previstos em US$300 milhões. A empresa, que em dez anos de operação havia se tornado a maior da Bolívia, com investimentos superiores a US$1,5 bilhão, foi forçada a entregar 26 postos e duas refinarias em 2006, recebendo US$112 milhões do governo boliviano. Ela continua com suas operações de exploração, embora dando maior poderes à estatal YPFB. Com isso, pode ter deixado de ganhar mais, mas afirma ao GLOBO ter encerrado "suas atividades de refino na Bolívia com um retorno adequado do capital investido", acrescentando que o valor recebido "foi considerado compatível".

Vale do Rio Doce quer explorar o lítio boliviano

Mesmo com a descoberta do pré-sal, o embaixador brasileiro afirma que o contrato de importação de gás deve ser estendido depois de 2019, inclusive atendendo a um dos grandes anseios do governo Morales, que quer passar a produzir um produto beneficiado e mais caro, mas precisa de investimento externo para construir sua usina. Em fevereiro, Lula recebeu Morales em Corumbá e se disse interessado em viabilizar um pólo de gás químico perto da fronteira. A obra seria da Braskem, da qual a Petrobras possui 20% de participação.

E no mais recente dos interesses brasileiros na Bolívia, a Vale do Rio Doce, em parceria com as francesas Bolloré e Eramet, prevê apresentar em breve sua proposta de joint-venture para exploração de lítio no país. A Bolívia detém metade das reservas mundiais do mineral, usado na fabricação de baterias para celulares, computadores e carros. A colaboração será bem-vinda. Na quinta-feira, a Câmara Boliviana de Hidrocarburos (CBH) anunciou que as receitas com a venda de gás devem encolher em US$1 bilhão este ano, especialmente devido à menor demanda do Brasil e à queda do preço no mercado internacional. O montante é quase metade do investimento público anual do país. (S.V.)