Título: Bangladesh, nação de refugiados do clima
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 07/12/2009, Ciência, p. 31

Superpovoado e com baixa altitude, país poderá ter 20 milhões afetados pela elevação do mar

BENGALIS USAM barcos improvisados durante enchente: até 2050, 17% da superfície do país estarão submersos

Kutubdia, Bangladesh. ¿O mar já engoliu duas vezes minha casa¿, conta Jalal Ahmed, enquanto aponta para sua terceira morada, uma humilde cabana de bambu sem água corrente nem eletricidade onde as ondas já chegam. Esse homem de barba branca é testemunha de como a bela ilha onde vive desde sempre, Kutubdia, ao sudeste de Bangladesh, perde terreno para o oceano.

No último século, a ilha já perdeu 65% de seu território de 250 quilômetros quadrados. O problema é a rápida erosão causada por ciclones, tormentas e inundações, que se aceleraram recentemente, muito possivelmente como efeito das mudanças climáticas, concordam especialistas.

Ahmed aponta triste para o mar. A uns 200 metros da costa, estava sua casa anterior, que foi engolfada pela água há cerca de 5 anos. Mais adiante, a anterior, perdida há quase 15 anos, e muito, muito mais adiante, estava a casa de seus avós, onde havia terra para semear. Agora, terras assim são um bem escasso e cobiçado. Há tão poucas e com tantos habitantes que, como Ahmed, quem antes era camponês virou pescador ou arrumou emprego nas salinas.

¿ Queria poder partir, como fazem os que podem: os que têm dinheiro ¿ lamenta.

Ele lembra que, depois do ciclone de 1991, mais de 400 famílias deixaram Kutubdia de uma vez. Com isso, mais de 60% de seus habitantes migraram para cidades em terra firme. Foram construídos sucessivos diques para tentar lutar contra o mar, mas as iniciativas foram inúteis. A ilha é o mais palpável exemplo de que o empobrecido país do sul da Ásia é onde mais pessoas sofreram os efeitos do clima.

As condições do país, um delta com mais de 200 rios e com pouca elevação, fazem com que qualquer aumento no nível do mar cause a perda de propriedades e meios de vida. As terras cultiváveis se salinizam, sobretudo na superpovoada orla. São mais de 160 milhões de habitantes em uma das áreas mais densamente povoadas: 1.110 pessoas por quilômetro quadrado. Até 2050, 20 milhões de pessoas poderiam ser deslocadas por causa do aquecimento global, que deixaria 17% da superfície do país debaixo d¿água, adverte o Banco Mundial. Os bengalis desprovidos de casas e formas de sustento ganharam um rótulo: refugiados climáticos.

Os especialistas e o governo são contundentes ao creditar o aquecimento aos países ricos. Bangladesh, uma das nações mais pobres do mundo, só contribui com 0,1% do CO2 global. Cada bengali produz 0,3 toneladas do gás por ano, bem distante das 7,6 de um espanhol e das 20,6 de um americano.

¿ As pessoas que estão perdendo seus lugares têm direito a procurar abrigo nos países ricos ¿ diz Atiq Rahman, que dirige o Centro de Estudos Avançados de Bangladesh.

Na Conferência de Copenhague, o país pedirá às nações desenvolvidas que reduzam suas emissões e que direcionem fundos para compensar os efeitos que já está sofrendo.