Título: Europa: entre avanço e a discórdia
Autor: Berlinck, Deborah
Fonte: O Globo, 07/12/2009, Ciência, p. 31
Ainda que na vanguarda ambiental, União Europeia enfrenta divisões internas sobre os cortes de CO2
TORRES DE usina nuclear eslovaca: além da redução da emissão de CO2, proposta europeia prevê 20% de corte no consumo de energia através de melhor eficiência energética
PARIS. A Europa largou na frente, há quase uma década. E quando muitos nos Estados Unidos resistiam a alterar seu modelo poluente, o continente investia na mudança. Mas agora, na COP-15, os europeus correm o risco de assistir impassíveis aos dois maiores poluidores da Terra ¿ Estados Unidos e China ¿ roubarem o palco e se unirem para ditar o tom Copenhague. Um tom menos ambicioso do que eles gostariam.
E os europeus chegam a Copenhague divididos. Alguns países estariam preparados a ir além da proposta da União Europeia de cortar, até 2020, as emissões de carbono em 20% em relação a 1990. Holanda e Dinamarca, por exemplo, propõem que a meta se eleve para 30%, mas com a condição de que outras nações, especialmente os EUA, aumentem também sua cota. Outros, como Itália e Polônia, que têm uma forte indústria de carvão, acham que já se foi longe demais.
¿ A UE não opera como um bloco homogêneo. É muito difícil chegar a um consenso, sobretudo agora, com a crise econômica ¿ diz Reinhilde Veugelers, do Bruegel, um centro de pesquisa em Bruxelas.
O bloco dos 27 países também não consegue se entender sobre questões cruciais na pauta de Copenhague, como a ajuda necessária para que países em desenvolvimento cortem suas emissões de gases.
¿ Os que defendem 30% estão bem silenciosos. Eles (os europeus) estão esperando. A atitude é: já fizemos, agora cabe aos outros ¿ diz Veugelers.
Além dos cortes, a proposta europeia, aprovada em dezembro do ano passado, prevê 20% de aumento no uso de energia renovável e 20% de corte no consumo de energia através de melhor eficiência energética até 2020. Mas cientistas dizem que seria necessária redução de 25% a 40% para o plano europeu ¿ classificado de ¿o mais ambicioso do mundo¿ pelo presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso ¿ ter impacto real.
Há ainda, entre os europeus, resistências de poderosos setores industriais. A atual proposta da UE de diminuição das emissões foi fechada depois de uma batalha: alemães ameaçaram derrubar o projeto e italianos fizeram exigências. Várias concessões foram feitas para acalmar indústrias que temem que novas regras ambientalistas as tornem, no curto prazo, menos competitivas em relação aos concorrentes nos EUA e nos países emergentes.
O bloco tem desenvolvido uma série de regras nos últimos anos, para impulsionar empresas a embarcarem num modelo mais limpo, como subsídios e taxação de carbono. A UE opera desde 2005 um esquema de troca de direito de emissões ¿ ETS, na sigla em inglês ¿ que permite a indústrias usarem, venderem ou trocarem cotas de emissões de CO2.
Reinhilde Veugelers diz que, talvez por conta do baixo nível de subsídios, todos estes esquemas ainda não impulsionaram a indústria europeia a investir no desenvolvimento de tecnologia limpa, como se esperava. E agora algumas, como Arcelor Mittal, a gigante do aço, e a petrolífera Royal Dutch Shell, estão ameaçando diminuir o investimento no continente.
Com todos os tropeços, a Europa está na frente na batalha ambiental. Pelo Protocolo de Kyoto, a UE tem que reduzir em 8% suas emissões de dióxido de carbono até 2012. O último relatório da Agência Europeia para o Meio Ambiente (EEA, em inglês) mostra que a esmagadora maioria dos 27 países membros da UE, com exceção da Áustria, estão no caminho para cumprir as metas do protocolo. Desses, 14 já atingiram a meta, incluindo França, Alemanha, Grécia, Suécia e Reino Unido. As últimas projeções dizem que em 2012 os 15 principais países europeus terão até avançado além da meta: corte de 13%.
Em 2008, as emissões da UE caíram pelo quarto ano consecutivo, a seu mais baixo nível desde 1990: cerca de 5 bilhões de toneladas de CO2. As emissões da UE representam hoje entre 11% e 12% do total mundial, com uma média de 10,2 toneladas por habitante, acima da média mundial (6,7 toneladas), mas bem abaixo da média americana (23 toneladas).