Título: Para analistas, internet será aliada do consumidor para evitar alta de preços
Autor: Carneiro, Lucianne; Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 05/12/2009, Economia, p. 36

Especialistas lembram que setor é pulverizado e fica difícil aumentar margens

A FAMÍLIA BASTOS comprou cama box, rádio, DVD e ventiladores no feirão das Casas Bahia ontem no Rio

Lucianne Carneiro, Patrícia Duarte e Cássia Almeida

RIO e BRASÍLIA. A compra das Casas Bahia pelo grupo Pão de Açúcar não deve trazer prejuízo para os consumidores, segundo especialistas. Ainda que a concentração no mercado de bens duráveis aumente, a avaliação é que não deve ocorrer alta de preços. Além de o mercado ainda ser muito pulverizado, com mais de dez cadeias de varejo espalhadas pelo país, ainda há a pesquisa de preço facilitada pela internet, com vários ferramentas de comparação de valores e, ainda, sites de venda pela rede:

¿ Embora a concentração seja expressiva, não há prejuízo para o consumidor. Dificilmente a concentração permitirá abuso do poder de monopólio, já que hoje o consumidor pode comparar preço com muita facilidade ¿ afirmou o professor Claudio Felisoni de Angelo, presidente do Programa de Administração de Varejo (Provar).

Felisoni destacou que os movimentos de fusões e aquisições são uma tendência do varejo. Atualmente, o lucro do setor cresce principalmente por meio do aumento do volume de operações:

¿ Os produtos e serviços são cada vez mais parecidos. E o lucro do varejo se faz entre margens ou com volume. Mas as margens do setor não podem ser muito alteradas, porque a comparação de preço está a um clique do consumidor.

O diretor de Pós-Graduação da ESPM/RJ Eduardo Halpern também não vê impacto negativo da operação para o consumidor, apesar de reconhecer que é ¿um salto significativo em termos de concentração no mercado de produtos eletrônicos¿.

Juliana Campos, analista da Ativa Corretora, o ganho de escala fará o novo grupo ter poder de barganha com os fornecedores e, consequentemente, preços menores.

¿ Nesse setor, o ganho vem com a escala, a margem de lucro é pequena. Mas é o segmento que mais cresce no varejo.

Idec acredita que preços podem subir com a fusão

Já o assessor técnico do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Marcos Pó, não tem dúvidas de que os preços vão subir e os serviços, piorar, com a fusão.

¿ Sem dúvida, aumento de preços vai haver. Eles se fundem para aumentar a rentabilidade. Os preços baixam com a concorrência e não com a concentração. Num primeiro momento, pode haver uma queda de preços, mas, depois de sufocar a concorrência, a tendência é os preços subirem.

Essa também é a preocupação de um importante integrante do Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência (SBDC). Para ele, as chances de a compra das Casas Bahia pelo grupo Pão de Açúcar significar concentração de mercado são grandes, o que pode causar prejuízos a consumidores e fornecedores:

¿ Esse processo preocupa. Não vai ser um negócio tão tranquilo.

Em princípio, a aquisição deverá ser analisada em blocos inteiros, ou seja, pela ótica do varejo de supermercado e de eletroeletrônicos e afins. As empresas têm 15 dias úteis para notificar o SBDC sobre a operação. A partir daí, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), se perceber que existe algum problema para a concorrência, poderá impedir que o novo controlador faça alterações na empresa comprada, até que o processo todo seja analisado. É muito provável que isso aconteça nessa fusão.

Os órgãos de defesa da concorrência vão analisar se o negócio poderá gerar padronização de preços ou pressão excessiva sobre os fornecedores.

A secretária de Direito Econômico, Mariana de Araújo, disse ontem que a análise vai verificar se a operação vai dispor de melhores canais de distribuição e atendimento.

¿ Uma empresa que tem poder de mercado pode, se enfrentar concorrência de seus pares, conseguir comprar mais barato e repassar para o consumidor. Mas isso não é necessariamente verdade.

A família Bastos foi conferir a abertura da Super Casas Bahia, no Riocentro. Em menos de uma hora, foram comprados uma cama box, rádio, DVD e ventiladores. A mãe, Ana Bastos, ao ser informada do negócio, achou que a união poderá ser boa para quem compra nas lojas de uma das redes. O filho Hugo Bastos já demonstrou preocupação. Para ele, quanto menos concorrência, pior para o consumidor:

¿ Não acho tão bom porque a concorrência é menor.

COLABORARAM Erica Ribeiro e Gustavo Paul