Título: Distribuição desigual de profissionais no país
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 06/12/2009, O País, p. 15
Regiões Sul e Sudeste concentram 75% dos 220 mil dentistas. Só em São Paulo, estão 72 mil
Há algo mais do que a falta de uma política séria nessa área. O diagnóstico da situação é mais amplo, sugere a pesquisa ¿Perfil Atual e Tendências do Cirurgião Dentista Brasileiro¿, feita pelo Ministério da Saúde com a Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, e que será publicada em janeiro.
O estudo mostra que, independentemente do poder aquisitivo dos brasileiros, um problema básico é a má distribuição dos dentistas no país.
Dos 220 mil profissionais, 72,5 mil estão em São Paulo. Os sete estados do Sul e do Sudeste dispõem de 75% deles. Os restantes 25% estão nas demais 20 unidades da federação.
Em alguns municípios, um dentista para 65 mil pessoas
Assim como há cidade com um dentista para cada 171 habitantes, também existem municípios em que a proporção é de um para 65 mil. Isso de deve à concentração das faculdades de odontologia ¿ metade dos 197 cursos estão no Sudeste ¿ e também ao fato dos formandos preferirem se fixar na região onde estudaram.
¿ O governo precisa articular com urgência uma política de estímulo, inclusive financeiro, para que profissionais optem por trabalhar em áreas mais carentes ¿ disse Norberto Lubiana, presidente da Associação Brasileira de Odontologia.
A insistência dos dentistas em se amontoarem ¿ 49% estão nas capitais, onde o custo de vida é mais alto ¿ acaba prejudicando as suas próprias finanças. A pesquisa mostrou que 60% deles ganham menos do que R$ 5 mil por mês.
Além de trabalhar num consultório privado, alguns também praticam no serviço público onde, com frequência, os recursos materiais são mínimos, insuficientes para se fazer tratamentos: sua tarefa se limita à extração de dentes.
¿ Sem investimento público, resta apenas aplicar essa ação mutiladora para sanar a dor ¿ disse Ellen Bundzman, coordenadora da Turma do Bem no Rio de Janeiro.
Constrangido, o rapaz diz: "Eu não conheço o meu riso"
A estratégia de conscientização daquele grupo, tanto para sensibilizar as autoridades quanto para atrair mais profissionais para o seu programa ¿Adote um Sorriso¿ ¿ no qual se comprometem a cuidar dos dentes de pelo menos uma criança carente até que ela complete 18 anos ¿ conta agora com o documentário ¿Boca a Boca¿.
O filme, recém-lançado, está repleto de depoimentos tocantes, em que a perda da dignidade se torna evidente. Como o de John Lennon Marques Machado, de 17 anos, de Itapetininga, interior de São Paulo: ¿ Tenho vergonha do meu sorriso. Tenho vontade de me esconder, de olhar para baixo, para o lado, disfarçar.
A fragilidade de Elizeu Souza Marinho, de 16, morador da favela de Paraisópolis, em São Paulo, diante da câmera era ainda mais constrangedora: ¿ Não conheço o meu riso ¿ disse o rapaz, quase sem abrir a boca, envergonhado. (J.M.P.)