Título: Doeu, arrancou
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 06/12/2009, O País, p. 15
Aposentado não tem um dente sequer
RECIFE. O aposentado Arlindo José da Silva, de 77 anos, e a dona de casa Cristina Ferreira da Hora, de 39, são um retrato do Brasil sem dentes. Ambos moram numa comunidade carente no bairro de Afogados, na Zona Norte de Recife.
Ele foi perdendo os dentes aos poucos, porque nunca contou com um tratamento de qualidade, e hoje é totalmente desdentado.
E ela não tem sete dentes, mas exibe outros que parecem cacos. Cristina tenta agora repor a chapa (uma prótese) porque a que usava caiu na valeta do bairro, onde o esgoto corre a céu aberto.
Cristina mora num bairro onde o posto de Saúde da Família está desativado há seis meses por problemas de infraestrutura, segundo a líder comunitária Cleonice da Silva. Assim, a comunidade está há um semestre sem dentista. Arlindo já se conformou com a situação.
¿ Acho que a gengiva endureceu, porque como tudo, só não mordo osso ¿ conta.
Ele diz que, quando era mais jovem, não tinha dinheiro para ir a dentista particular; e os dos serviços públicos só complicaram sua situação.
¿ Eles botavam uma massa. Continuava doendo e eu pedia para arrancar.
Terminei arrancando tudo.
Bem mais jovem, Cristiana também passou por situação parecida. Teve muita dor de dente e resolveu arrancar.
Perdeu sete, todos retirados em clínicas públicas. Semana passada, por distração, pôs a prótese num um balde com água que jogou na latrina. A peça acabou no esgoto a céu aberto, na frente de casa, e ela teve nojo de recuperá-la.
Em Pernambuco, as escolas públicas não contam com programa para saúde bucal, nem possuem gabinetes odontológicos. E o programa Saúde na Educação, do governo federal, ainda não deslanchou.
Esse programa prevê um conjunto de ações em várias áreas, inclusive na bucal, com trabalho preventivo, escovódromo e avaliação.