Título: A geração do idoso brasileiro
Autor: Ribeiro, Fabiana
Fonte: O Globo, 06/12/2009, Economia, p. 27
Pessoas com mais de 60 anos movimentam, anualmente, R$ 255,6 bi no país
Tem 21 milhões de pessoas com mais de 60 anos que movimentam R$ 255,6 bilhões por ano ¿ 68,1% desse total são benefícios de aposentadoria, pensão por morte e assistência social, nas contas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Números como esses reafirmam a importância de se discutir o impacto da nova pirâmide populacional brasileira na economia do país. O Brasil gasta só na Previdência Social 14% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços do país), e os dados oficiais registram déficit de R$ 41,9 bilhões. Esses exemplos da força econômica dos mais velhos serão mostrados, a partir de hoje, em série de reportagens do GLOBO.
Na última década, a proporção de idosos passou de 8,8% para 11,1% do total da população, numa expansão mais rápida do que em muitos países europeus. O envelhecimento populacional é resultado de conquistas do passado, como queda na mortalidade infantil e avanços na saúde. Some-se a isso a redução na taxa de fecundidade brasileira que possivelmente fará com que, a partir de 2030, a população comece a encolher. Em paralelo, o total de idosos começaria a ultrapassar o de jovens de 15 a 29 anos, prevê a pesquisadora Ana Amélia Camaramo, do Ipea. Atualmente, a população apta a ingressar no mercado de trabalho atinge o ápice, com 34 milhões entre 15 a 24 anos.
¿ O Brasil desfruta de uma das maiores conquistas sociais da segunda metade do século XX, verificada em quase todo o mundo: a redução da mortalidade em todas as idades. Isso resultou no aumento da esperança de vida, em que mais e mais pessoas atingem idades avançadas. Uma das certezas que se pode vislumbrar para o futuro próximo é o crescimento a taxas elevadas de idosos vivendo mais tempo. Embora a conquista mereça ser comemorada, o envelhecimento aumenta a despesa previdenciária ¿ explicou a especialista do Ipea.
21 milhões agora, 60 milhões depois
Não há consenso sobre a saída para o déficit previdenciário, disse Ana Amélia. Para ela, as soluções poderiam passar, por exemplo, por um sistema de contribuição sazonal, que traria autônomos e informais para a Previdência, aposentadorias parciais e manter por mais tempo o trabalhador na ativa. Mas, acrescenta Vinicius Pinheiro, especialista sênior para a América Latina da Organização Internacional do Trabalho (OIT), já houve avanços na discussão brasileira, como a inclusão da expectativa de vida no cálculo previdenciário: ¿ O Brasil envelheceu mais rapidamente nos últimos 30 anos do que a Inglaterra nos últimos 100. É claro que isso vai significar uma pressão sobre as contas da Previdência, principalmente porque não existe no Brasil uma idade mínima para receber a contribuição ¿ disse Pinheiro, para quem relações de trabalho mais flexíveis esticariam o tempo do trabalhador na ativa, como o trabalho em casa, alternativa bastante comum na Europa que tem sido uma opção para os mais velhos.
O Brasil acompanha a tendência mundial de envelhecimento. Nas contas da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2000, havia 600 milhões de idosos no planeta. As previsões apontam que eles serão 1,2 bilhão em 2025.
E atingirão dois bilhões em 2050. Já a população mundial deve saltar, nesses 50 anos, de seis bilhões para nove bilhões, 50% de aumento. Segundo Alexandre Kalache, ex-diretor de programas de envelhecimento da instituição, será nos países em desenvolvimento que este aumento será mais enfático: dos 400 milhões em 2000 para 1,7 bilhão em 2050.
¿ E o Brasil na vanguarda. Em 2050, serão 60 milhões contra os 21 milhões. E o motivo (do envelhecimento) nem é tanto pelo número de idosos, mas sim a diminuição no número de jovens ¿ atentou Kalache, acrescentando que, nos anos 70, a média de filhos por mulher era de praticamente seis; hoje está abaixo de dois. ¿ Conseguimos esta conquista social: envelhecer. Daqui a pouco passaremos a ser uma população que encolhe, como Rússia, Japão, Alemanha.
O Brasil tem uma excelente oportunidade: ser pioneiro na elaboração de políticas que permitam a nós, países em desenvolvimento, virarmos um laboratório social, exportando políticas sustentáveis para uma realidade demográfica que, ao que parece, veio para ficar.
José Márcio Camargo, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, faz os cálculos: o Estado brasileiro gasta 15,6 vezes mais com os idosos do que na educação de suas crianças.
¿ O país deveria investir mais no futuro, ou seja, nas crianças. É claro que mantendo o bem-estar dos idosos.
Mas o sistema é bastante benevolente com o idoso ¿ disse Camargo, para quem os gastos com saúde dos idosos vão continuar a crescer, devido ao envelhecimento.
O aposentado Sylvio Vianna Freire, 106 anos, presidente da Sociedade Propagadora das Belas Artes, é um dos representantes dos idosos brasileiros.
Por mês, ele gasta com saúde e cuidados pessoais ¿ de acompanhantes a fisioterapia ¿ cerca de R$ 5.000. Todos os dias sai para passear no shopping próximo de casa ou nos jardins do Palácio do Catete.
Hoje, tem problemas de audição e de visão. Nada, no entanto, que o impeça de participar ativamente de reuniões na instituição. Conhecido por onde passa, faz questão de dar a receita para viver tanto e viver bem: ¿ Minha receita de longevidade é trabalhar e ser um curioso da vida. E ter o amor da família por perto ¿ diz o tricolor de coração, que tem cincos filhos, dez netos e 14 bisnetos.
¿ Sou um homem feliz.
Sylvio é um viúvo simpático que tem poucos amigos da sua geração: ¿meus amigos são minha família¿, diz.
Faz sentido. Na última contagem do IBGE, em 2007, os centenários somavam 11.400 pessoas (7.950 mulheres e 3.472 homens). Segundo a pesquisadora Ana Amélia, essa faixa é a que mais cresce no mundo todo. Os avanços na medicina ajudam a explicar esse aumento da longevidade.
¿ Naturalmente, esse grupo não conta com tantos representantes assim.
Por isso, a expansão é bastante expressiva.
Mostra, contudo, os avanços no direito de envelhecer.
Esse ¿direito de envelhecer¿ esbarra, contudo, no preconceito da sociedade brasileira, ponderou o cientista social José Carlos Libânio, ex-coordenador de desenvolvimento humano da Organização das Nações Unidas (ONU)-Brasil: ¿ Uma das queixas que atravessa gerações é o desrespeito ao idoso.
Ao contrário do que acontece em outros países, como o Japão, o Brasil discrimina e desvaloriza o seu idoso. De certa maneira, os próprios idosos se desvalorizam: muitos entendem que o idoso é sempre o ¿outro¿. Mas, muitas vezes, o desrespeito vem da própria família.
Minha receita de longevidade é trabalhar e ser um curioso da vida. E ter o amor da família por perto. Sou feliz
SYLVIO VIANNA FREIRE, 106 anos