Título: Desafio à economia
Autor: Jansen, Roberta
Fonte: O Globo, 06/12/2009, Ciência, p. 38

Redução do uso de fontes fósseis seria irreversível, mesmo ccom um acordo em Copenhague

A transição para uma economia de baixo carbono, mais limpa e menos ameaçadora ao futuro da Humanidade, já começou e é irreversível, garantem especialistas. Mesmo que um acordo global não seja alcançado na Conferência de Mudanças Climáticas das Nações Unidas que começa amanhã, em Copenhague, o mercado promete ser o grande regulador das metas de redução de gases causadores do efeito estufa. Barreiras comerciais climáticas, ligadas ao volume de emissões, tendem a se impor. E quem não mudar, perderá dinheiro.

¿ Exatamente o que o mundo vai decidir em Copenhague está em aberto. Mas é certo que a descarbonização, a mudança para uma economia de baixo teor de carbono, ocorrerá e será uma das transições tecnológicas mais aceleradas de toda a história econômica ¿ afirma o economista Sérgio Besserman, presidente da Câmara de Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura do Rio. ¿ Isso é imposto pela realidade da mudança climática; não há alternativa, salvo ocorrer em custos altíssimos um pouco mais à frente.

Para José Eli da Veiga, do Departamento de Economia e da pós-graduação em Relações Internacionais da USP, a transição começou antes mesmo da consciência do aquecimento global, por razões de segurança energética, e vai continuar, seja qual for o resultado da conferência.

¿ As fontes de energia são muito mal distribuídas no mundo ¿ constata.

¿ Há uma dependência séria dos países desenvolvidos em relação ao Oriente Médio e à Rússia por causa do petróleo e do gás natural.

Ricos disputam novas tecnologias

Além disso, acredita Veiga, os países ricos já veem oportunidades únicas de investimento.

¿ As elites dos países centrais perceberam há mais tempo a grande oportunidade para um novo ciclo de negócios ¿ diz Veiga. ¿ Para países como os escandinavos, o Japão e os EUA, a questão se coloca da seguinte forma: já está acontecendo, não podemos perder tempo ou perderemos liderança tecnológica. Quando surge esse ímpeto, de uma grande oportunidade para o país, as forças favoráveis à transição ficam mais fortes.

Com ou sem acordo global para a redução das emissões, se os EUA aprovarem a Lei do Clima que tramita no Senado ¿ que prevê um corte de 17% em relação aos números de 2005 ¿ imporão uma mudança nas relações comerciais.

¿ Com as metas mandatórias, eles estarão impondo aos negócios um custo a mais, o produto americano vai ficar mais caro ¿ destaca Besserman.

¿ Ao fazer isso, não tem lógica permitir que o consumidor americano passe a comprar o mesmo produto em outro país que não tenha o mesmo ônus em sua produção.

Para ele, ou todos os países concordam num acordo ou a ¿tentação protecionista será muito forte, respaldada pela própria lógica da economia e das mudanças climáticas¿.

Para os especialistas, a ideia de que um país emergente possa decidir não ter meta de desaceleração de emissões de CO2 é irreal.

¿ Toda a dinâmica tecnológica estará seguindo na direção da economia de baixo carbono. Ficar de fora disso é se condenar ao anacronismo ¿ diz Besserman. ¿ Além disso, não será possível escapar de retaliações protecionistas.

A própria lei americana que tramita no Senado deixa uma margem para práticas protecionistas. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, já chegou a propor medidas protecionistas. E a Organização Mundial do Comércio (OMC) adotou como parâmetro para as suas decisões as conclusões do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU.

¿ Ainda não aconteceu na prática, mas já existe uma determinação da OMC de não considerar prática desleal de comércio a imposição de uma barreira para um outro parceiro em razão de clima ¿ explica o cientista político Sérgio Abranches, especializado em política climática. ¿ A OMC entenderá que o país que não faz redução de carbono tem uma vantagem desleal no comércio.