Título: Lula, o poder e o pudor, em debate sobre filme
Autor: Damasceno, Natanael
Fonte: O Globo, 11/12/2009, O País, p. 16

Longa sobre a trajetória do presidente é exibido para leitores no auditório do GLOBO e provoca polêmica

BESSERMAN, VALVERDE, Ancelmo, Luiz Carlos Barreto e Fábio Barreto (da esquerda para à direita) no debate: opiniões divididas sobre o longa

O filme deveria ser o centro do encontro. Mas foi o personagem quem inflamou a plateia na pré-estreia de"Lula, o filho do Brasil", de Fábio Barreto, promovida anteontem pela série Encontros O GLOBO. O longa, inspirado na trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e previsto para estrear no início de 2010, ano eleitoral, foi projetado anteontem para um auditório lotado na sede do GLOBO.

Logo após a projeção, o colunista Ancelmo Gois mediou debate com o diretor Fábio Barreto; o produtor Luiz Carlos Barreto; o economista Sergio Besserman Vianna, professor da PUC-Rio; e Antonio Valverde, professor de ética e filosofia política da PUC-SP. Eles discutiram a produção e as críticas ao lançamento do filme num ano eleitoral, tendo como tema central a trajetória do presidente em exercício.

Besserman: filme poderia esperar fim do governo Lula

Sergio Besserman provocou polêmica ao dizer que Lula deveria ter tido o puder de pedir que o filme só fosse lançado após o fim de seu mandato, em dezembro de 2010:

- Achei o filme muito bom, porque nos conta a saga que fez parte da história do Brasil. Não vejo problema ético. Mas há por parte do presidente da República, e não do produtor, do diretor e dos atores, uma pequena falta de pudor ao não pedir que o filme fosse exibido apenas quando terminasse seu mandato.

Fábio Barreto disse que o filme é um produto comercial e que, apesar de estar associado à figura do presidente, foi feito de forma independente:

- Não temos como pagar isso (o investimento na produção) parando durante um ano para só exibir depois. Mas entendo seu desejo de que ele (Lula) manifestasse um certo pudor em pedir isso, o que evitaria toda a discussão sobre o filme ser propaganda eleitoral.

O diretor argumentou ainda que, como Lula não concorre a um terceiro mandato, não viu problema no lançamento em ano eleitoral. O presidente, porém, já está em campanha pela sua candidata, a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT).

Fábio Barreto disse que o filme não mitifica o presidente. Ao contrário: desmistificaria o homem que chegou à Presidência, demonstrando o valor do povo brasileiro.

- Por que temos um presidente que é respeitado no mundo inteiro e no Brasil a mídia tenta destrui-lo, achincalhá-lo? Por que o brasileiro não tem autoestima? Por que o sucesso aqui é proibido? Por que a elite tem tanto medo de perder a massa inferior, miserável e e achatada? Para se sentir superior? Isso está mudando e é irreversível - disse o diretor. - Esse filme é sobre o povo brasileiro e uma homenagem ao povo brasileiro - completou.

Antônio Valverde lembrou que o filme acaba antes da fundação do PT:

- Só uma parcela da população vai ao cinema. Não dá para imaginar massas e massas vendo o filme. Nesse ponto, isso alivia um pouco o peso dessa discussão de que o filme teria uma conotação política imediata.

Sobre os patrocínios que viabilizaram a produção, Luiz Carlos Barreto afirmou que a obra não foi encomendada por ninguém. O filme tem custo de cerca de R$16 milhões. Entre os patrocinadores, há empresas que têm contratos com o governo.

- Fica todo mundo só falando das empresa privadas. Mas elas fizeram seu merchandising no filme porque acharam interessante valorizar suas marcas. Não há nenhum cunho político. Entraram porque é um filme de interesse popular e é um bom negócio - defendeu.

Luiz Carlos Barreto disse que o filme, em vez de exaltar Lula, está muito mais centrado na mãe do presidente:

- O filme é uma homenagem à Dona Lindu e às mães brasileiras. Esse filme mostra o que uma âncora familiar como Dona Lindu pode produzir.

Os Barreto falaram das críticas à produção:

- É legítimo a mídia e a imprensa fazerem o que acham que é certo. Na democracia existe liberdade de expressão. Se acham que não é correto, que o filme é eleitoreiro, que a grana vem de empresas com contratos (com governo), é legítimo. É uma opinião do órgão e cabe a nós rebater - disse o diretor.

Apesar das polêmicas, o tom geral, entre os debatedores e a plateia, foi de elogios ao filme. Valverde disse que a película tem senso de oportunidade, já que retrata, de forma bem trabalhada, como a virtude política é desenvolvida na trajetória do personagem central, a ponto de fazê-lo passar da esfera privada para a pública.

- Em filosofia e ética política, discute-se muito como funcionam a esfera pública e a esfera privada. E aqui há a discussão sobre como Lula saiu da esfera privada, do universo da família, sem perder de vista os valores. Ele tem a mensagem da mãe, essa coisa de teimar, que significa "Seja forte", mas sem ressentimento. Por outro lado, há a esfera pública, que ele vai construindo no trabalho, na fábrica.

Para Sérgio Besserman, o filme se sai bem por não ter a pretensão de retratar a realidade histórica brasileira.

- Gostei muito do filme. É um excelente trabalho de diretor, de atores, e levou vantagem por contar uma saga. O personagem da vida brasileira que incorpora diferentes funções sociais. Faz essa transição entre a vida privada e a vida pública sem sustentações ideológicas ou intelectuais. A realidade é sempre muito mais complexa, até mesmo, que a vida até mesmo do personagem Lula. Contar a história do país, a história do personagem, seria jogar no colo dos espectadores as contradições, e nenhuma saga faz isso - avaliou o economista.

Besserman encerrou o debate afirmando:

- O maior problema de conhecimento que o Brasil não está no povo, na pouca qualidade do ensino. Está no pouco apreço que a elite tem pelo conhecimento. O povo foi excluído do acesso ao conhecimento por séculos de opressão. A elite não valoriza o conhecimento porque não precisou dele para competir. Agora é que as coisas começam a mudar.

Besserman encerrou citando Bertolt Brecht:

- Infeliz do povo que precisa de herois.