Título: Arruda pede para sair
Autor: Vasconcelos, Adriana; Jungblut, Cristiane
Fonte: O Globo, 11/12/2009, O País, p. 3

Governador se antecipa a possível expulsão e anuncia desfiliação do DEM

ARRUDA DURANTE pronunciamento, observado pelo vice Paulo Octávio: governador reclamou de pressão e disse sair para evitar "constrangimento de amigos do DEM"

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A estratégia do partido é dar tempo no caso do vice e mostrar decisão rápida quanto ao deputado distrital Leonardo Prudente (DEM), presidente licenciado da Câmara Legislativa do DF, que foi flagrado escondendo bolos de dinheiro no paletó e nas meias. Sobre Paulo Octávio, a alegação é que ele não aparece em vídeos recebendo dinheiro ou conversando sobre o esquema - seu nome é apenas citado por terceiros.

Arruda decidiu se antecipar após uma tentativa fracassada de suspender o julgamento no DEM. O anúncio foi feito poucas horas depois que a ministra Cármem Lúcia, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mandou arquivar mandado de segurança que pedia a suspensão da reunião.

Governador admite "práticas negativas"

Apresentando-se como vítima de uma "farsa montada" e acusando adversários de tentarem impedi-lo de disputar a reeleição em 2010, Arruda justificou a saída do DEM com o argumento de que agora poderá se dedicar à conclusão das duas mil obras de seu governo. E voltou a dizer que não teria tido direito de defesa.

- Com esse gesto, evito o constrangimento dos amigos e companheiros do partido, de ter que decidir entre saciar a sede por atos radicais e midiáticos ou julgar com amplo direito de defesa e cumprimento dos prazos estatutários. Evito o constrangimento de discussão judicial de mérito para permanecer na legenda - disse ele, em pronunciamento à imprensa, sem responder a perguntas.

Abatido, mas demonstrando segurança, e usando o andador por causa da cirurgia no pé, Arruda falou ao lado da mulher, Flávia, do vice Paulo Octávio e de assessores e aliados como o ex-deputado Roberto Brant (DEM-MG) e o deputado Alberto Fraga (DEM-DF). Sem citar diretamente o vídeo em que aparece recebendo R$50 mil do ex-secretário de Relações Institucionais Durval Barbosa, Arruda admitiu que seu governo foi palco de "práticas negativas", que ele disse terem sido herdadas de gestões passadas:

- As práticas políticas que marcam negativamente a vida brasileira, infelizmente, devo admitir, são heranças que, agora vejo com clareza, não consegui extirpar completamente como gostaria e como era meu dever.

O governador prometeu a apuração completa das denúncias e disse que lutaria pela mudança de costumes da política brasileira:

- Com as regras eleitorais, não disputarei mais eleição. O país necessita de ampla reforma política.

Após o pronunciamento de Arruda, Alberto Fraga fez críticas à cúpula do DEM, lembrando que o partido agiu de forma diferente quando a Polícia Federal encontrou R$2 milhões numa empresa de Roseana Sarney, então pré-candidata da sigla à Presidência.

- Qualquer bandido na rua tem direito a ampla defesa. Não estou dizendo que os fatos não são graves. Mas o partido teve comportamento diferente no caso da Roseana, e mesmo com o PSDB. O PT e o presidente Lula, quando enfrentaram problema semelhante, não fritaram seus companheiros.

A cúpula do DEM passou horas reunida no Senado aguardando o anúncio. Nervoso, o presidente do partido, deputado Rodrigo Maia (RJ), disse que a saída de seu único governador encerra o "mais grave caso" da sigla.

- Estamos encerrando um caso grave, talvez o mais grave do partido. Mas as situações (de Arruda e Paulo Octávio) são diferentes e devem ser avaliadas de forma completamente diferente. O vice-governador não aparece em diálogo e vídeo recebendo recursos - disse.

O líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN), reforçou:

- O Paulo Octávio está mencionado (nos vídeos) como está o presidente da Câmara, Michel Temer. O nível é parecido. É preciso haver profundidade nas acusações.

Rodrigo Maia disse que o DEM estava respondendo com "transparência e firmeza" e que um processo que leva à desfiliação já é um "julgamento político duro". Antes do anúncio, Arruda telefonou para parlamentares do partido. O líder na Câmara, Ronaldo Caiado (GO), defensor da expulsão de Arruda, não escondeu o alívio:

- O DEM tem credibilidade moral para tratar de qualquer filiado.