Título: Noiva em fuga da religião
Autor: Malkes, Renata
Fonte: O Globo, 13/12/2009, O Mundo, p. 37
Cônjuges de diferentes crenças precisam viajar ao exterior para se casar
CASAL ÁRABE-israelense contempla a vista antes do casamento em Jerusalém: escolher um parceiro de outra religião pode sair caro
JERUSALÉM. Aos 32 anos de idade, a carioca Rosane Dias diz se sentir como uma adolescente fugindo para se casar escondida. Crescida numa família protestante, ela conheceu o marido, Gadi, um israelense judeu, e mudou-se para Tel Aviv há três anos. Mãe de Beny, de 2 anos, ela se prepara para viajar para Praga e finalmente oficializar o casório na primavera. O casal engrossa as estatísticas de israelenses impedidos de se casar pelo Rabinato-Chefe, único órgão com poderes de realizar matrimônios em Israel. Apesar de apenas 20% da população serem ortodoxos, o ritual segue à risca os preceitos da lei judaica ortodoxa. Os dois noivos têm de dar provas de serem judeus, a noiva deve se declarar virgem e tomar um banho especial antes da cerimônia. Quem não se enquadra na descrição, tenta driblar o monopólio indo para o exterior.
¿ O certificado de casamento civil diminui pela metade o tempo de espera para ganhar a cidadania, de cinco para dois anos e meio. Vamos oficializar porque temos um bebê e temo que o fato de não sermos casados possa vir a dificultar a vida dele ¿ conta Rosane.
Segundo a Associação de Mulheres de Israel, a cada ano 11 mil israelenses são obrigados a sair do país para casar, numa indústria que movimenta 31 milhões de shekels por ano (cerca de US$8,2 milhões). Na falta do casamento civil, milhares de casais recorrem a pacotes de turismo para oficializar a união no exterior. Chipre e República Tcheca são os destinos mais comuns para quem tenta driblar o Rabinato. Como não é preciso ser cidadão desses países para ter o casamento registrado, demora-se apenas dois dias, entre a papelada na Justiça, a cerimônia em cartório e o esperado ¿sim¿.
O interesse pelo casamento civil é tão grande nos últimos anos que as agências de turismo descobriram no amor um rentável filão. O pacote mais barato, incluindo passagens aéreas, duas noites num hotel modesto e assistência jurídica em Chipre não sai por menos de 250. O advogado Caleb Mayers, do Instituto Jerusalém para a Justiça, lembra que a impossibilidade de cônjuges de diferentes religiões unirem-se em matrimônio é absurda, além de causar um rombo no bolso.
¿ Além de ferir gravemente o direito básico de qualquer cidadão de casar-se com quem e como quiser, enfrentamos ainda uma afronta econômica. Custa caro ir ao exterior. E quem não puder arcar com a despesa, como fica? ¿ indaga o advogado. (Renata Malkes)