Título: Contagem regressiva para siderúrgica no Rio
Autor: Paul, Gustavo; Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 13/12/2009, Economia, p. 29
A partir de fevereiro, 80 mil toneladas de carvão poderão ser descarregadas de navios na CSA
INSTALAÇÕES DA CSA, em Santa Cruz: um dos dois altos-fornos deverá começar a funcionar em abril
George Vidor
Agora parece que é mesmo para valer. Logo na entrada principal há um placar eletrônico, com contagem regressiva, marcando a data da fabricação do primeiro aço da Companhia Siderúrgica do Atlântico (ThyssenKrupp CSA), em Santa Cruz, na Zona Oeste: 1º de julho de 2010.
Mas antes disso algumas unidades da indústria já começarão a funcionar. Em fevereiro, por exemplo, atracarão no terminal portuário da CSA, na Baía de Sepetiba, três navios carregados de carvão.
Os dois descarregadores de carvão (equipamentos do tamanho de um edifício de dez andares) importados da China estão instalados e devidamente testados. Em três dias de trabalho ininterrupto poderão descarregar um navio com 80 mil toneladas de carvão. A cada 50 segundos, a caçamba do descarregador faz duas ¿viagens¿ e retira até 70 toneladas de carvão, despejadas em correias de borracha que percorrem mais de quatro quilômetros do píer ao pátio de estocagem. Cada descarregador custou 9 milhões.
Próximo ao pátio de estocagem fica o virador de vagões, instalado pela Vale (sócia da ThyssenKrupp na CSA), que fornecerá o minério de ferro. Quando a siderúrgica estiver a plena carga, produzindo cinco milhões de toneladas anuais de placas de aço, os comboios da MRS chegarão em intervalos de 36 horas ¿ em média, quatro por semana.
O minério de ferro será espalhado em camadas no pátio de armazenagem, para ser homogeneizado. Depois irá por correias até a sinterização, unidade que está pronta para operar (na sinterização, o minério é aglomerado para, dentro dos altos-fornos, permitir a passagem de ar, necessária ao processo de derretimento).
A CSA tem dois altos-fornos. Um deles será aceso provavelmente em abril, com coque importado (a bateria A da coqueria da siderúrgica está programada para entrar em operação em julho; as baterias B e C só devem ser concluídas ao longo do segundo semestre de 2010; nessa finalização trabalham hoje cerca de 300 chineses, únicos empregados da obra alojados em galpões no próprio canteiro).
Siderúrgica terá térmica menos poluente
Dos altos-fornos sairá o ferro-gusa. A uma temperatura acima de 1.500 graus centígrados, o minério é derretido (reduzido, na linguagem técnica), com o carbono do coque ¿capturando¿ o oxigênio até se obter o ferro. Nessa captura, além do gusa, o gás resultante ¿ inerente à fabricação de aço ¿ é o indesejável CO2, um dos vilões do chamado aquecimento global.
Para compensar esse impacto ambiental negativo, a CSA vai gerar mais energia do que precisa, usando uma termelétrica que queimará gases provenientes da coqueria e da aciaria. O projeto é inovador, pois terá uma eficiência energética de 43%, enquanto as termelétricas convencionais a gás não passam de 38%. Os 5% a mais de eficiência praticamente pagam o investimento e levaram a empresa a se candidatar a créditos de carbono, reivindicando das Nações Unidas o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) para a termelétrica.
Trata-se de um sistema complexo: só existem quatro turbinas no mundo com essas características, e duas estão na CSA. Cerca de metade da energia (215 megawatts) será entregue ao sistema interligado e talvez ajude a evitar apagões no Rio.
Dos dois mil empregados do quadro permanente previsto para a nova siderúrgica, 1.400 estão contratados. Mais 1.500 trabalharão lá como terceirizados depois de terminada a obra. Por enquanto no canteiro de obras, finalizando construções e montagem de equipamentos, estão trabalhando 22 mil pessoas. No pico da obra, 30 mil foram empregadas.
Não se vê mais `soldados¿ do tráfico nas redondezas
A chegada da CSA, maior investimento privado em andamento no país (cerca de 5 bilhões, ou R$12,7 bilhões) foi, sem dúvida, um marco na vida de Santa Cruz, que vinha ameaçada pela deterioração econômica, violência e a ocupação desordenada. Houve um tempo que ninguém ousava mais passar pela reta João XXIII, no fim da Avenida Brasil, pois era uma área completamente dominada por traficantes. O movimento na rua hoje é intenso e não se vê mais ¿soldados¿ do tráfico circulando nas redondezas. Pelo menos à luz do dia. Alguns alemães que estão trabalhando na CSA até alugaram casas bem simples, em ruas sem pavimentação, nas redondezas, porque acharam mais cômodo morar próximo da empresa. Não se sabe se o fizeram por desinformação ou se de fato já se sentem mais seguros ali.