Título: A remoção do cadáver é técnica de acobertamento
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 13/12/2009, O País, p. 13
O que vocês descobriram em suas investigações?
JOSÉ MIGUEL VIVANCO: Pudemos notar que em ambos os estados, mas mais na capital do Rio do que em São Paulo, usa-se uma técnica de acobertamento que é a da remoção do cadáver da vítima da cena do crime. Os policiais levam o corpo ao hospital e alegam que a remoção foi feita para socorrer a vítima. Isso só serve para destruir a cena do crime, e ainda cria a aparência de que houve um ato de boa fé por parte dos policiais.
Mais uma vez, o informe foi mal recebido pelas autoridades. O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, chegou a dizer que o relatório é ¿fruto de patrulhamento ideológico¿. Como encara esse tipo de reação?
VIVANCO: O curioso das declarações do senhor Beltrame foi que, ao falar aquilo, também reconheceu que ainda não tinha lido o informe. Ele não conversou comigo. Mas tive longa e detalhada reunião com o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Antonio Ferreira Pinto, cujo gabinete também tinha feito críticas, mas menos agressivas que as de Beltrame, e esclarecemos todas as dúvidas e preocupações. O encontro acabou sendo muito positivo e construtivo. Ele aceitou nosso diagnóstico sobre a polícia de São Paulo, e até se comprometeu a nos entregar informações precisas sobre o estado das investigações internas, disciplinares, de sua polícia.
O governador Sérgio Cabral reagiu mal às informações?
VIVANCO: Tivemos uma sólida conversa de uma hora, num bom clima. Num primeiro encontro que tivemos, seis meses atrás, enquanto ainda colhíamos dados para o informe, a conversa não foi fácil. Havia tensão e, sobretudo, uma cota de desconfiança, em parte, creio, por desconhecimento de nossa visão. Creio que conseguimos baixar as tensões e mostrar que os dados eram concretos. Mas suspeito que, naquela época, o fator Olimpíadas de 2016 também estava em jogo.
Como assim?
VIVANCO: É que nós nos encontramos para conversar sobre a pesquisa quando o Comitê Olímpico Internacional ainda não tinha escolhido a cidade que vai sediar as Olimpíadas. Poderíamos ter elaborado esse informe antes que o COI decidisse. E não o fizemos.
Que recomendações fizeram, no caso do Rio?
VIVANCO: Dissemos ao governador Cabral que é importante que ele aproveite as oportunidades que lhe dão os meios de comunicação para explicar que direitos humanos não são incompatíveis com segurança pública. Pelo contrário. Se acreditarmos que os direitos humanos não são parte da equação de segurança pública, estamos perdidos. Porque, então, começamos a agir confiando numa polícia que é ineficaz, brutal, corrupta, penetrada pelas máfias, e que não responde a ninguém.