Título: Correndo contra o tempo
Autor:
Fonte: O Globo, 15/12/2009, Ciência, p. 31

Africanos paralisam negociações e decisão sobre financiamento não avança Deborah Berlinck e Roberta Jansen Um novo racha entre países ricos e pobres ¿ desta vez iniciado por um boicote de nações africanas ¿- paralisou ontem durante várias horas a Conferência do Clima da ONU, acentuando o maior desafio dos negociadores às vésperas da chegada a Copenhague de líderes de mais de 100 países: a falta de tempo. E, a cinco dias para o fim da reunião, os negociadores não avançaram ontem no principal impasse, que é o financiamento dos ricos para que os pobres lidem com as mudanças climáticas. Os africanos (que estão entre os mais castigados pelo aquecimento global), com apoio da China e dos demais países em desenvolvimento do G-77, ameaçavam abandonar as negociações. O sudanês Lumumba Stanislau Di-Aping, presidente do G-77, chegou a acusar a presidência dinamarquesa da conferência de estar usando métodos "não democráticos" para levar adiante os interesses dos países ricos. E não poupou os europeus: ¿ A União Europeia está se escondendo por trás dos EUA com a estratégia de matar o Protocolo de Kioto. 'Atmosfera glacial' entre ricos e pobres Os africanos acusam os ricos de estarem varrendo para debaixo do tapete o único instrumento que hoje os obriga a reduzirem emissões ¿ o Protocolo de Kioto ¿ e de estarem dando mais importância à negociação do outro acordo, no qual países em desenvolvimento, como Brasil e China, pela primeira vez, terão compromissos de redução de emissões. ¿ O que eles (ricos) estão querendo é passar as obrigações dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento ¿ disse Lumumba. Os africanos orquestraram um boicote, exigindo negociações em separado de Kioto. Os trabalhos só foram retomados depois que esse pleito foi atendido. A confusão decorre do fato de Copenhague estar decidindo sobre dois processos ao mesmo tempo. De um lado, um segundo período de compromissos em Kioto para que países ricos reduzam emissões. De outro lado, um novo instrumento, que ninguém sabe que forma terá ainda, para incorporar pela primeira vez compromissos dos países em desenvolvimento e dos EUA (que não fazem parte de Kioto). Nestes dois processos, uma questão crucial para os países em desenvolvimento permanece nebulosa e, pelo que tudo indica, só vai ser resolvida no último minuto: dinheiro. Ninguém sabe ainda quanto, a médio e longo prazo, os países ricos irão se comprometer a dar para ajudar países em desenvolvimento a mitigarem e se adaptarem aos efeitos da mudança do clima. Os ricos defendem que a prioridade seja o financiamento para os países mais vulneráveis. Os países desenvolvidos querem que grandes emergentes como a China usem dinheiro de seu próprio caixa para se adaptarem ao clima e, ainda, que contribuam para um fundo global. É o que defendem, por exemplo, os EUA. Todd Stern, enviado especial do presidente Barack Obama, afirmou ontem que houve progressos nas discussões sobre o que chamou de "arquitetura do financiamento". Mas não explicou que progressos foram esses. Já os africanos soltaram um comunicado se dizendo "furiosos com a falta de transparência e democracia no processo". Mas a batalha toda está se concentrando no conflito entre os dois maiores poluidores: Estados Unidos e China. O primeiro quer que chineses e países em desenvolvimento se comprometam mais, e o segundo levanta a bandeira de 20 anos dos países em desenvolvimento: de que a responsabilidade histórica pelo problema é dos ricos, cabendo a eles arcar com a maior parte da conta. ¿ Há muita desconfiança. Senti uma atmosfera glacial aqui dentro ¿ afirmou o presidente do Comitê de Meio Ambiente do Parlamento Europeu, Jo Leinen, defendendo que os chineses se comprometam com mais "porque há uma diferença entre China e Burkina Faso". Enquanto isso, o relógio avança: ¿ Está acabando o tempo ¿ alertou o ministro do Meio Ambiente da Suécia, Adreas Cargren. COPENHAGUE 2009.