Título: O dissidente que atrapalha Frei
Autor:
Fonte: O Globo, 12/12/2009, O Mundo, p. 34

Marco Enríquez-Ominami, de 36 anos, desponta na campanha com discurso de renovação

ENTREVISTA Marco Enríquez-Ominami

Quando chega à entrevista, Marco Enríquez-Ominami ainda está rouco do comício da véspera, em que encerrou sua campanha para as eleições presidenciais chilenas de amanhã. As pesquisas podem indicar que ele não conseguirá se classificar para o segundo turno, mas dono de 17% das intenções de voto, ele sabe que seria um apoio valioso para o candidato da Concertação, Eduardo Frei, derrotar o empresário Sebastián Piñera no mês que vem. Apesar disso, ele não admite em hipótese alguma a possibilidade de derrota.

Foi essa mesma teimosia que demonstrou o deputado socialista quando decidiu largar a Concertação ¿ aliança de quatro partidos que vão desde o centro democratacristão até os membros do Partido Socialista ¿, inconformado com a escolha de Frei para disputar a Presidência, e que o levou, com pouco apoio, a recolher assinaturas para se lançar como candidato independente.

Seu comitê de campanha, no centro de Santiago, contrasta com os dos dois outros principais candidatos, instalados em zonas elegantes da capital chilena. No comitê, velhas cadeiras de madeira lembram bancos de escola e jovens trabalham na recepção.

¿ Em vez de Concertación (que quer dizer consenso, acordo), eles a transformaram em conservação ¿ diz ele, ao explicar por que deixou o partido.

Aos 36 anos, Enríquez-Ominami foi uma das poucas surpresas numa campanha morna e povoada por antigos rostos. Sua candidatura atraiu jovens, em geral apáticos no período eleitoral no Chile, e eleitores de esquerda, descontentes com a coalizão que está no governo há 20 anos.

A própria história de vida do deputado socialista é interessante e não foi esquecida durante a campanha eleitoral. Cineasta, filho de um guerrilheiro morto durante a ditadura do general Augusto Pinochet, ele nasceu três meses antes do golpe que derrubou o presidente Salvador Allende.

Foi adotado pelo hoje senador socialista Carlos Ominami e cresceu no exílio, na França. Agora quer formar um novo partido ¿que olhe para a frente¿. As opiniões variam a seu respeito. Vão de ¿promessa¿ a ¿inconsistência¿.

Ele passa, mais uma vez, a mão pelo cabelo e responde: ¿ Já disseram tudo sobre mim.

Até que tinha prazo de validade.

Domingo e os dias seguintes devem definir até onde vai a validade do candidato.

Cristina Azevedo

Enviada especial ¿ SANTIAGO O GLOBO: Como o senhor vê as pesquisas de opinião que indicam que não chegará ao segundo turno, mas, caso chegasse, seria mais competitivo do que Frei diante de Piñera? MARCO ENRÍQUEZ-OMINAMI: Não brigo com pesquisas. As nossas dão que vou ganhar. As da direita dizem que eu vou perder. As da esquerda também. As da imprensa dão que estou empatado (com Frei). Estou sereno.

O que vale é a pesquisa de domingo.

Seguramente vou vencer.

Caso não vença, apoiaria Frei? Ou, no caso oposto, buscaria seu apoio? ENRÍQUEZ-OMINAMI: Eu digo que me restam três dias para ganhar e cem anos para perder. Até o dia da eleição, vamos ganhar.

Por que saiu da Concertação? ENRÍQUEZ-OMINAMI: Saí da Concertação porque suas elites, não seus eleitores, tornaram-se conservadoras.

Em vez de Concertación (consenso, acordo) a transformaram em conservação.

O senhor não encontrava mais espaço no partido? ENRÍQUEZ-OMINAMI: O problema de fundo são as primárias. Eles se comprometeram com um mecanismo para diminuir as diferenças, as primárias abertas. Mas mudaram as regras. Isso não se faz.

Parece haver uma certa amargura na Concertação em relação a sua saída.

Dizem que o senhor dividiu os votos da esquerda. Teme ser acusado por uma eventual vitória de Piñera? ENRÍQUEZ-OMINAMI: Não, porque vamos ganhar de Sebastián Piñera.

Mas, diferentemente da Concertação, não quero ganhar usando o argumento de 1964. Quero usar os argumentos de 2009 e 2010. Quero ganhar com a força de minhas convicções. Essa é a minha diferença. Não venho defender um patrimônio, ou deputados, ou senadores.

Somos um grupo de chilenos.

Sou da esquerda progressista.

Quero trabalhar com todos.

O senhor voltaria à Concertação? Ou fundaria um novo partido? ENRÍQUEZ-OMINAMI: Quando vencer, moverei todas as instâncias para criar uma nova formação política. Os problemas do século XXI requerem referenciais do século XXI. Não sou um ditador. Seriam as forças culturais e políticas que me acompanham que teriam que desenhar o novo partido.

Não aspiro a ser um ditador. Aspiro a ser presidente do Chile e a coordenar um grupo de forças para derrotar a pobreza. Qualquer referente novo mais eficiente do que o usado hoje para derrotar a pobreza será o meu referencial.

Como seria esse partido? ENRÍQUEZ-OMINAMI: Uma coalizão de esquerda progressista onde caibam todos. Que tenha três eixos programáticos e políticos. Primeiro, o Chile tem que avançar um federalismo atenuado, um semi-presidencialismo, onde haja as figuras do presidente e do primeiro-ministro.

São necessárias primárias nos partidos, ou seja, uma reforma eleitoral.

Segundo, uma revolução na educação. São 15 pontos para melhorar a educação. E o terceiro é uma reforma fiscal. Onde os que ganhem mais paguem mais, e os que ganhem menos paguem menos.

Queremos taxar cinco dimensões econômicas, incluindo royalties, os vícios, como álcool e cigarro. Isso daria, por ano, mais de US$ 2 bilhões para gastar em saúde, educação e segurança.

A Concertação pode se fragmentar depois das eleições de domingo? ENRÍQUEZ-OMINAMI: Já está fragmentada.

Há presidentes regionais de partidos comigo, e parlamentares, e prefeitos. É um fato. Isso já ocorreu. A questão é se queremos líderes ou ex-líderes.

Como vê as relações com o Brasil? ENRÍQUEZ-OMINAMI: Uma vez disseram: ¿Argentina, Brasil e Chile.

Juntos somos indestrutíveis. Separados somos indefensáveis.¿ Argentina, Brasil, Chile e Uruguai, o Cone Sul, têm que estar juntos. É assim que vejo a política exterior. É necessário construir mais alianças a longo prazo.

Os analistas têm opiniões diversas a seu respeito. Alguns dizem que é um nome forte para 2014. Outros, que vai desaparecer...

ENRÍQUEZ-OMINAMI: Já disseram que eu não tinha fôlego (para completar a campanha); que tinha prazo de validade (o compararam a um iogurte). Já disseram de tudo sobre mim. Mas contradizemos isso e batemos todos os recordes.

Assinaturas para minha candidatura, tudo. Comecei sozinho com uma mochila no automóvel. Convenci um grupo. E nesse grupo agora estão senadores, deputados, vereadores. É uma força política e cultural do século XXI