Título: Chapa branca
Autor:
Fonte: O Globo, 12/12/2009, Opinião, p. 7

Os escândalos de corrupção em Brasília são um prato cheio para a crítica social e política, em programas humorísticos, marchinhas e blocos de carnaval, charges... Só num espaço historicamente transgressor e irreverente não se tocará neste assunto: o carnaval das escolas de samba na Sapucaí. O enredo sobre os 50 anos de Brasília, da Beija-Flor, vai passar ao largo de qualquer menção à política atual.

Olhando para as origens do carnaval, e para a forma como ele se configurava há muito pouco tempo, as manchetes do caso José Roberto Arruda seriam um deleite para qualquer escola de samba. Afinal, é no carnaval que o plebeu vira rei, que os papéis se invertem e que o povo pode botar a boca no trombone de forma descontraída ¿ não é à toa que as máscaras de maior sucesso nos blocos são as de políticos, e que as marchinhas há décadas fazem uma ácida crítica social.

Mas, de 15 anos para cá, o espetáculo do Sambódromo mudou. Os patrocínios chegaram, os dirigentes das escolas passaram a achá-los absolutamente necessários e se entregaram sem pudores aos encantos das moedinhas. O fato é que, desde então, a festa se tornou chapa branca. Branquíssima.

Um desavisado que ouvir o CD das escolas de samba de 2010 vai levar um susto, mesmo que ouça apenas as 5 primeiras faixas. Nelas, temos a Beija-Flor, com sua homenagem a Brasília totalmente desconectada do imaginário popular ¿ como pedir para o povo cantar o samba se ele não se reconhece naquela mensagem? Depois vem a Portela, com uma ode aos benefícios da tecnologia nas favelas cariocas, numa propaganda governamental. Não satisfeita, ainda incluiu em seu samba o nome de um fabricante de computadores (¿Faz da criança um cidadão/Positivo pra nação¿), na esperança de pingar mais uma graninha. Depois, aparece a Grande Rio, que obrigou seus compositores a amontoarem no refrão as palavras do slogan de uma cervejaria (¿Grande Rio eu sou, guerreiro/Sou brasileiro e faço o meu ziriguidum/Vibra, arquibancada, explode!/O camarote número 1¿). Sobra reverência, falta irreverência.

Será que quem comanda a festa realmente quer que o público brinque carnaval desse jeito? Não é simples entender que a vendagem de discos diminuiu, assim como a procura por fantasias, porque ninguém acha graça nesses sambas oficialescos? O povo quer é ir para a Sapucaí com fantasia de rei ou de mendigo, nunca travestido com a marca de um patrocinador. Carnaval é arte, é transgressão, é bom humor, é festa popular. Se vira espetáculo chapa branca, se afasta do público.

LEONARDO BRUNO é jornalista