Título: Bancos brigarão para ficar na Nova Casas Bahia
Autor: Rosa, Bruno
Fonte: O Globo, 08/12/2009, Economia, p. 21
Na disputa, Bradesco e Itaú Unibanco. Para analistas, gigante do varejo ganha poder de negociação com setor financeiro
A compra das Casas Bahia pelo Grupo Pão de Açúcar, dono da rede Ponto Frio, terá reflexos até no setor financeiro, com o aumento do poder de negociação do novo grupo varejista. Juntos, Casas Bahia e Ponto Frio somam mais de 17 milhões de cartões de crédito emitidos para os clientes. Apesar de a empresa comanda por Michael Klein ter parceria com o Bradesco, e o grupo de Abílio Diniz ter contrato com o Itaú Unibanco, a tendência é que apenas uma das duas maiores instituições financeiras do Brasil permaneça no negócio.
E o critério que vai decidir a escolha, dizem analistas, é o preço. Nas Casas Bahia, o contrato com o Bradesco vence em 2010. Já o acordo entre Itaú Unibanco e Ponto Frio começou no início do ano passado. Segundo Roberto Troster, sócio da consultoria Integral Trust e ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), uma série de questões será analisada para definir qual instituição irá comandar a operação da nova companhia, conhecida por ora como Nova Casas Bahia.
- Em um primeiro momento, tudo ficará como está. Mas a médio prazo algo pode acontecer, e uma das empresas pode perder o espaço. Questões como margem, absorção de despesas e critério na concessão de crédito serão essenciais para a definição. De qualquer forma, será mais um negócio na mão de menos empresas, e a rede terá mais poder de negociação no setor financeiro - diz Troster.
Porém, especialistas do setor financeiro não concordam com o argumento de Michael Klein, de que um só banco não consegue atender sozinho Casas Bahia e Ponto Frio.
- Isso não existe. Um banco consegue, sim, atender às duas redes. Há mecanismos que permitem isso, como a securitização - diz um analista.
Aumentam incentivos a uso do cartão de crédito
O Bradesco, segundo fontes envolvidas no negócio, já mostrou interesse em conversar com as Casas Bahia. Hoje, a rede é o maior cliente do banco, que tem acordos ainda com Drogasil, O Boticário, Colombo, Luigi Bertolli, Leader e G. Barbosa. Luis Miguel Santacreu, analista de bancos da consultoria Austin Rating, também avalia que a rede passa a ter mais poder de fogo dentro do setor financeiro.
- Tudo vai depender da proposta dos dois bancos - acredita Santacreu.
As duas empresas varejistas, no entanto, têm hoje modelos diferentes de negócio. Nas Casas Bahia, o carnê ainda é uma das principais formas de vendas da empresa. No Ponto Frio, a fatia do modelo na composição da receita caiu de 23,5%, no ano passado, para 4,6% no terceiro trimestre deste ano. Enquanto isso, a importância do cartão de crédito subiu de 13,4%, em 2008, para 14,7% este ano.
- As Casas Bahia estão gradualmente procurando substituir o carnê, incentivando o uso do cartão de crédito, por exemplo - continua Santacreu.
De qualquer forma, não será tarefa fácil descartar um dos dois bancos, diz uma fonte. Além do Bradesco, principal parceiro das Casas Bahia, a rede tem ainda parceria com Safra, Caixa, Banco do Brasil e Santander. A empresa tem hoje cerca de R$1 bilhão em créditos a receber, de operações com milhões de clientes que compram itens financiados. Esse crédito não foi incorporado à Nova Casas Bahia.