Título: Brasil quer intensificar discussão sobre coca
Autor: Valle, Sabrina
Fonte: O Globo, 08/12/2009, Mundo, p. 27

Cerca de 80% da pasta base são exportados para o território brasileiro

LA PAZ. O aumento da produção de folha de coca na Bolívia e da exportação, para o Brasil, de pasta base para cocaína e crack será um dos principais pontos da agenda bilateral Brasília-La Paz nos próximos cinco anos de governo Evo Morales. A Bolívia é o terceiro maior produtor mundial de coca e Brasília, com dados da própria Polícia Federal, acredita que 80% da pasta base produzida no país são hoje exportados para o Brasil.

O assunto é citado em declarações oficiais do governo brasileiro desde 2007, mas a avaliação é que não vinha sendo tratado à altura da gravidade do problema. A partir de agora, o governo estimulará reuniões bilaterais sobre o tema, informam diplomatas brasileiros.

A produção de folhas de coca vem crescendo com a ajuda do próprio Morales, ex-cocaleiro que acumula o cargo de presidente do país com a presidência de sete associações de produtores da folha. Segundo a ONU, as plantações aumentaram em 6% em 2008, chegando 30 mil hectares, dos quais apenas 12 mil eram legais. Uma lei assinada entre governo e produtores após esse estudo elevou a área legal total a 20 mil hectares.

Morales defende que a coca faz parte da tradição da cultura local. O chá da folha, uma bebida de sabor suave tida como digestiva e auxiliadora no combate ao mal de altitude, é encontrado em qualquer bar boliviano. Também é tradição no país, principalmente entre os homens, mascar folhas de coca. Mas um estudo europeu citado por especialistas da ONU indica que apenas 7 mil hectares seriam suficientes para atender à demanda local.

O resto é sobreprodução que acaba exportada ilegalmente.

Morales, que no ano passado expulsou do país os agentes americanos antitráfico, acusando-os de espionagem, reclama da falta de equipamentos para monitorar as plantações. Seu governo já pediu ao Brasil a doação de aviões Tucano, da Embraer, para combater o tráfico. Mas o Brasil afirma que só poderia vendê-los.

¿ Os EUA não nos permitem comprar aviões com radares e tampouco aportam dinheiro como antes, portanto não têm autoridade para questionar (o aumento do tráfico) ¿ afirmou. (S. V.)