Título: Carta branca para a mudança
Autor: Valle, Sabrina
Fonte: O Globo, 08/12/2009, Mundo, p. 27

Partido de Evo Morales esmaga oposição ao conquistar dois terços das cadeiras do Senado

Enviada especial ¿ LA PAZ

Evo Morales disse ontem que passara as últimas duas noites com dor de estômago. Pesquisas mostram que o presidente boliviano foi reeleito no domingo para um segundo mandato com mais poderes, num pleito que enfraqueceu a já debilitada oposição e lhe deu carta branca no Congresso para, segundo ele, aprofundar seu projeto socialista.

Mas poderes tão grandes vêm também com desafios que podem ser dolorosos.

Além de desenvolver o país e melhorar a condição social da segunda população mais pobre da América Latina, Morales terá de cuidar para evitar um racha no próprio partido e torcer para que os preços do gás, base de seu programa assistencialista no primeiro mandato, mantenham-se altos no mercado internacional.

¿ O processo (socialista de governo) está consolidado, agora precisamos aprofundá-lo ¿ afirmou o presidente ontem em entrevista coletiva, comentando ainda a conquista dos almejados dois terços das 36 cadeiras do Senado, o que põe fim à barreira oposicionista no Congresso para aprovação de leis. ¿ Sinto que com esses dois terços nos libertamos.

Reeleição com 62,5% dos votos

Segundo pesquisa do Instituto Ipsos para a rede ATB e o jornal ¿La Razón¿, Morales foi reeleito com 62,5% dos votos, contra 27,6% de seu principal opositor, o ex-ministro de governos militares e ex-governador de Cochabamba Manfred Reyes Villa. As enquetes indicam que o Movimento ao Socialismo (MAS, partido de Morales) teria conseguido oito pontos percentuais a mais do que na última eleição presidencial, em 2005, quando Morales foi eleito com 53,7% dos votos.

Paralelamente, os eleitores de La Paz, Cochabamba, Chuquisaca, Potosí e Oruro aprovaram a entrada de seus departamentos no modelo de autonomia, como fizeram por referendo em 2006 Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija.

O resultado foi um forte baque para a oposição. As eleições para prefeito e governador marcadas para abril, em que os opositores pretendiam ganhar fôlego, agora serão mais duras. Além da vitória acachapante de Morales, as pesquisas mostram que ele teria conseguido crescer na chamada Meia Lua, os departamentos opositores do Leste, engrossando o número de senadores por Santa Cruz, Pando e Tarija. Os resultados oficiais saem até 30 de dezembro.

¿ Precisaremos nos próximos anos construir um líder nacional, hoje não temos um ¿ afirmou ao GLOBO o presidente do Senado boliviano e líder opositor, Oscar Ortiz.

¿ O problema não é só a fragmentação: o resultado de todos nós juntos não alcançou o de Evo.

Segundo Ortiz, a oposição não conseguiu construir uma alternativa em que os eleitores se sentissem seguros de que não perderiam avanços sociais, como os programas de transferência de renda ampliados por Morales: ¿ Precisaremos tocar o povo boliviano.

O controle agora é total. Teremos um governo de fachada democrática e exercício totalitário.

Ontem, Morales reuniu seu Gabinete perto do Lago Titicaca a fim de fechar a estratégia para ganhar em departamentos opositores em abril. Mas tanto poder, segundo analistas, pode agora revelar rachas dentro do MAS.

¿ O maior desafio de Morales não vai ser a oposição, mas as pressões internas de um movimento tão grande ¿ afirma Jim Shultz, chefe do centro de pesquisas americano com filial em Cochabamba Democracy Center.

¿ A incógnita é se o MAS vai conseguir melhorar a vida das pessoas e desenvolver um projeto de desenvolvimento de longo prazo. Até agora suas políticas foram financiadas pelo bom preço do petróleo e do gás, e isso pode acabar da noite para o dia.

Morales deixou ainda a porta aberta para um terceiro mandato. Apesar de garantir que não pensa no assunto no momento, ele se disse favorável à interpretação de que a nova Constituição, aprovada em janeiro prevendo a possibilidade de reeleição, zera a contagem do número de mandatos.

¿ É constitucionalmente minha primeira eleição sob a nova Constituição ¿ afirmou.