Título: O legado da Copa e o ambiente
Autor: Trengrouse, Pedro
Fonte: O Globo, 22/12/2009, O País, p. 7
Enquanto as atenções do mundo inteiro estiveram voltadas para a 15ª Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas em Copenhague e toda a sociedade civil esperava uma postura mais firme dos seus líderes, o Comitê Organizador Local da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul divulgou um estudo, realizado em parceria com o governo da Noruega, para neutralizar o impacto ambiental do evento, estimado em 2.753.250 toneladas de CO2.
Não é a primeira vez que os organizadores de uma Copa do Mundo se preocupam com a questão ambiental. Na Alemanha, o Comitê Organizador local, o Ministério do Meio Ambiente e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), da ONU, estabeleceram um compromisso.
Batizado de Gol Verde (Green Goal), foi idealizado para medir e compensar o impacto ambiental gerado pela Copa ao custo de 1,2 bilhão de euros, com iniciativas capazes de: * promover o uso responsável da água, com a utilização de águas pluviais e a instalação de mictórios secos nos estádios; * o reaproveitamento e a reciclagem de materiais, com a utilização de copos retornáveis e coleta seletiva de lixo nos estádios; * o transporte favorável ao meio ambiente, com planejamento público inteligente e incentivo à utilização de meios coletivos; *o uso eficiente de energia, com o desenvolvimento de sistemas de gerenciamento e a utilização de energia solar nos estádios.
Entretanto, na Alemanha, foi neutralizado apenas o equivalente a 100.000 toneladas de CO2.
A discrepância se explica porque na Alemanha não foram consideradas as emissões geradas pelas viagens de avião, que no caso da África do Sul, distante dos grandes centros mundiais, correspondem a 67% das estimativas. E as distâncias entre as sedes não eram tão grandes, o que permitia que raramente se voasse múltiplas vezes internamente, pois havia meios de transporte mais limpos, como os trens de alta velocidade.
O Brasil, assim como a África do Sul, está distante dos grandes centros e não possui malha ferroviária ligando as sedes, cujas distâncias entre si são bem maiores.
Isso aumentará consideravelmente o uso do transporte aéreo e, consequentemente, a emissão de gases causadores do efeito estufa.
Em 2014, o torcedor que quiser assistir a jogos em Porto Alegre e Manaus, as duas sedes mais distantes, fará uma escala em Brasília, pois não há vôo direto ¿ e causará mais do que o dobro de emissões de CO2 que seria emitido por quem voasse entre as duas sedes mais distantes em 2010, Cidade do Cabo e Nelspruit.
O custo total para neutralizar as emissões na África do Sul ficará em torno de R$ 66 milhões.
Esse valor, que será ainda maior no Brasil, não assusta se comparado com o volume de recursos relacionados ao evento.
No Brasil, segundo informações obtidas junto aos governos estaduais e prefeituras das 12 cidadessede (Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo), estima-se em pelo menos R$ 79,4 bilhões.
O Brasil se prepara para a Copa de 2014 e uma série de intervenções são necessárias para que o país viabilize o evento e potencialize seu legado.
É fundamental que haja uma estratégia de manejo ambiental integrada desde já aos processos de preparação.
Os desafios que o país deve enfrentar não se resumem aos investimentos em estádios e infraestrutura hoteleira e de transportes. O legado da Copa deve contribuir para melhorar a vida dos brasileiros, e a questão ambiental deve ser uma prioridade.
É preciso reforçar a mensagem da África do Sul: ¿Esporte e meio ambiente caminham de mãos dadas.¿